Ivan Lessa: A revolta contra o (vlapt!) Shibata

O médico das elites fardadas se queixa agora de intimidação psicológica.

Ivan Lessa, BBC

09 Abril 2012 | 05h03

Vocês continuam, pelo que vejo, a passar um dedo na língua e molhar para virar mais uma página das infinitas comissões de verdades e aproximações que ponteiam o território nacional do Oiapoque ao Chuí, conforme se dizia quando estes fenômenos naturais ainda não haviam sido desmascarados como os embustes que eram e aposentados com pensões generosas pelos vários grupos e dissensões da filial brasileira da organização humanista fundada pelos argentinos e que lá, como cá, recebeu o título de "Torturas Nunca Mais", que, frise-se para os nais jovens ou que acabaram de chegar, não tem nada a ver com o sambinha do Tom "Galeão" Jobim.

A verdade sempre acaba vindo à tona, conforme dizem os jangadeiros da costa baiana diante dos restos mortais de Chico, Ferreira e Bento, uma semana depois de desaparecidos nas ondas do verde mar nordestino, para continuar ainda num tom bemol de música popular brasileira de qualidade.

Pois não é que, nesse tempo todo (1985-2012), nunca ocorreu a ninguém tentar saber do paradeiro de Harry (whoosh!) Shibata, o médico legista das elites fardadas, que tantos serviços prestou com seus laudos (blam! kerchow!) médicos a respeito das mortes naturalíssimas de subversivos, ou de subversão suspeitos, nas instalações 3 estrelas de nossos quartéis, principalmente naquele situado na rua em que passei meus primeiros anos de infância, a então Tutoya, com Y.

Harry (swish!) Shibata foi flagrado vivendo numa casa dotada das mais modernas conveniências, inclusive porão onde exercitar suas artes mágicas (bíbidi-bóbidi-bu!).

Conta o mago da bata-oliva com bisturi que após bem vividos 81 anos, tem muita história a contar para os mais íntimos e velhos companheiros, que são muitos, e só agora, após ver sua carreira coroada como diretor do Instituto Médico Legal paulista, acumulando por certo algumas gordas pensões, passou a sofrer de, como se diz nas rodas alfabetizadas brasileiras, bullying (intimidação psicológica) mediante a farta distribuição e pregação em árvores e postes de sua vizinhança, cartazes com fotos daqueles que passaram pelo açoite (whaapt!) de seu parecer técnico no tocante (Ai! Ui! Aargh!) a indagações que giravam em torno de suas atividades pouco condizentes com os valores da época em que Harry (Slash!) Shibata praticava sua profissão de - nunca é demais lembrar - médico legista ("Deve ter caído de mau jeito, coitado!") das autoridades fardadas de então.

Nos pôsteres em questão, encaixaram dizeres fazendo perguntas impertinentes e relembrando fatos desagradáveis da carreira de Harry (slept!) Shibata.

Na frente de sua casa, já houve dias em que se reuniram entre 100 e 200 pessoas, indignadas com a existência em carne e osso do vizinho. Algumas bradaram desaforos, chegou a haver gente que atirou a língua.

Foi aquilo que se chama de um ato democrático porém não-institucional ou numerado em algarismos romanos e que marcou o sábado, 7 de abril, dia em que se comemora o Dia do Médico Legista e, também, com menos espalhafato e celeuma, o do Jornalista, que esses estão isentos das baixarias de querelas que tais e tem mais o que fazer do que remoer passadismos.

Não consta que os eventos aqui relatados venham a ter qualquer tipo de sequência ou sequer sequela. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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