Ivan Lessa: Ainda e sempre Chico Anysio

Não fossem aqueles que nos fazem rir e estaríamos todos um pouquinho pior nesta chatice de vida.

Ivan Lessa, BBC

26 Março 2012 | 05h33

Antes de mais nada, como todo mundo, lamentar a morte do esplêndido Chico Anysio.

Não fossem aqueles que nos fazem rir e estaríamos todos um pouquinho pior nesta chatice de vida.

O humorista Robert Benchley, de saudosa e esquecida memória, escreveu de certa feita numa de suas antológicas colaborações para a revista New Yorker, quando esta ainda se achava em uma de suas fases gloriosas, que "quando morre um humorista a única coisa a fazer é entrar no primeiro botequim e beber até cair no chão".

Depois noticiar direitinho quem era o tipo e o que fez.

Nossa imprensa, pelo que acompanhei na internet, fez o que podia e mais um pouco.

Pena que, de registro, apenas o Chico da Globo.

Não consegui um clipe das personagens pré-globais. Todas em branco e preto. Acho que eram para a TV Rio, mas não juro.

Nada do compositor popular, do Alfacinha, daquele garçom fanho e mais algumas dezenas de tipos.

Foi o único ator comediante que me fez rir no Brasil. Papa fina. Quando o Pasquim, através de sua editora, a Codecri, publicou umas coisas dele, foi uma glória e um desapontamento para o Chico: contas mal prestadas, má distribuição, a eterna pasquinagem.

Não guardou rancores, tudo bem com ele e aqueles que só os muitos desavisados chamavam de "patota", para grande divertimento dos que faziam o jornaleco.

Chico era um "labóratra", para não usar a expressão corrente em nossas terras que é workaholic. Brincava, quase que literalmente nas 11, ou, para ser mais preciso, nas suas 207 criações, pelo menos umas 197 delas antológicas e que - vem, lugar-comum, vem e me leva contigo - deverão viver para sempre graças ao milagre da tecnologia.

Ficarei sentindo a falta daquela turma em branco e preto que era um dos poucos motivos que me deixava em casa pelos arredores do aparelho de televisão.

Uma coisa que também senti falta, foi ninguém mencionar o Chico Anysio compositor, letrista, a bem da verdade, que de letras era homem, tanto é que nunca foi convidado para botar fardão e empunhar a espadinha da Academia Brasileira de Letras.

Na verdade não teve interesse em gozar aquilo que já é piada, e piada de péssimo gosto. Tenho guardadinho, graças ao YouTube (VocêTuba?), o Rio Antigo, composto em parceria com o Nonato Buzar e na gravação da formidável Alcione.

Nunca ouvi, e ouço sempre, sem deixar de sentir um nó na garganta e um ardor nos olhos (em certos casos, a perda de um humorista provoca não o porre mas um jorro incessante de frases feitas). Tenho a impressão de que era muito Chico Anysio demais para apenas 300 milhões de habitantes.

Dito isso, e em memória de grandes papos aqui (redação do Pasquim) e ali (butecos, esquina, corredores da Globo), não queria deixar de assinalar que a morte de Chico Anysio deu ensejo ao que seguramente podemos colocar em uma lista com as 10 melhores primeiras páginas de nossa história jornalística, a saber, quem diria, no jornal carioca O Dia, que fez algo simples e (nesse caso a palavra cabe mesmo) genial. Cercada por todos os lados com pequenas fotos das criações do homem, a manchete em letras garrafais, "Morreram Chico Anysio".

De vez em quando, caso do Chico e do jornal, esbarramos frontalmente com a grandeza. Pena que seja em horas tristes e com tamanha escassez. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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