Ivan Lessa: Nunca é tarde

Nunca é tarde para começar na arte do toc, toc, toc, tic, tic e tal.

Da BBC Brasil, BBC

21 de janeiro de 2008 | 06h00

Na semana que vem começarei a aprender violão. E não quero uma só posição. A para a mão esquerda, claro. Quero todas a que tenho direito. Oito ou 80, podem vir que eu traço. Ou topo. Topo aprender.Ao mesmo tempo, vou empostar a voz. Com professor categorizado. Se necessário for, e será, consultarei um fonoaudiólogo. Para me ensinar a cantar baixinho e docemente rouco.Por volta de maio, mais ou menos, mês de meu aniversário, mês de Maria, e o mais belo do ano em todos os países do mundo, gravarei meu primeiro CD. Só de músicas de bossa-nova.Homenageando assim, cá de Londres, a cinqüentona que correu mundo e ainda bate, não pinos, mas toc, toc, toc, tic, tic e tal.O CD levará o título de Isto também é bossa nova e serei acompanhado de piano, bateria, contrabaixo e cordas discretas.Do repertório, ainda por escolher, garanto a presença de clássicos, ou standards como prefere o José Ramos Tinhorão, feito Corcovado, Garota de Ipanema, Dindi e aquele do Vinícius, que será sempre para mim o "Vin", e que diz assim:"Crava as garras no meu peito em dorE esvai em sangue todo o amorToda a desilusão"Alegre, simples e brejeira, como tudo que era, letra ou onomatopéia, que fosse bossa-nova, pois não? Tãotá.Está no que chamávamos de LP, ou elepê, cognominado pelos realmente técnicos de "seminal" (relativo a sêmen, segundo o dicionário do Houaiss).Eles entendem do assunto. De raízes de nossa música popular, digamos assim, para eu não me lambuzar muito. Das origens de nossa bossa-nova.Está a supracitada canção, queria eu dizer, antes de começar a gaguejar, feito na marcha de Noel, está no disco da Elizeth Cardoso, Canção do Amor Demais, logo ali ao lado das faixas Chega de saudade e Outra vez, onde se ouve, atestam os profissionais do ramo, pela primeira vez, a batidinha do gênero em questão no violão de João Gilberto, que um jornal britânico, o The Guardian, de certa feita, apelidou de "suave menestrel" (em tradução presa e condenada). Abro um parêntese para lembrar, já que bossanovei (o verbo é livre. Usem e abusem. Feito se fazia com o velho Mate Leão), que entre as várias reportagens que andei lendo na imprensa brasileira eletronizada (aquela revista e aqueles 4 jornais de sempre. Ou 3 e 1/3. Por aí) as que mais me chamaram a atenção, pela perspicácia e real conhecimento, foram as declarações do sempre brilhante, e na grande forma habitual, Carlinhos Lyra (ah, anos 40! Ah, tardes de Leopoldo Miguez com Bolívar!), com sua tese, antítese e síntese, e a página inteira com o Chico Batera, subestimado de forma lamentável por nós todos, e que, depois de bater, não bota mas bateria, pelo mundo afora, acompanhando de Frank Sinatra a Elis Regina, passando por Quincy Jones, Henry Mancini e nosso bom Tom, conta, ou desabafa, lembrando que não foi só o violão de João Gilberto que transformou nossa música.Chico Batera lembra (ah, um ou outro papo com ele, lá no Beco das Garrafas nos anos 50!) que "tinha alguém fazendo toc, toc, toc no arco da bateria".Para ele só o também esplêndido Bebeto, baixista do Trio Tamba, não se esqueceu que nas duas faixas da Elizeth, com João no pinho, havia também o Juquinha e o Guaracy na sessão de gravação, além dos arranjos de, mais uma vez, e como sempre, Tom Jobim.Palmas para o Carlinhos Lyra, palmas para o Chico Batera. Ambos vão para o trono, que eles merecem, conforme dizia o Chacrinha, para continuar na hora e no toc, toc, toc da saudade. Mas e o meu CD?O meu CD, resultado de minha admiração pelo gênero tirado quase que lá do fundo do baú, ou do fundo da rede adversária, pelo mestre Ruy Castro, em sua brilhante biografia do gênero, o Chega de Saudad, livro que deu o tal do "toc, toc, toc" singularíssimo no que, para variar, íamos esquecendo, é também resultado de minha pesquisa midiática. Deu no Guardian, jornal que eu vivo citando por ser o único que leva meu dinheirinho quando entro no metrô, que o britânico John Lowe, de Witchford, condado de Cambridgeshire, sempre amou o balé a vida inteira.Sua vida inteira, até o momento em que digito esta página, conta com 88 velinhas, feito as teclas de um piano.Aos 79 anos (apenas uns meses mais velho que eu), começou a estudar a sério a dança clássica, feito eu vou fazer com o violão e a voz.Isso foi há 9 anos atrás, quando o ora bailarino era apenas duas ou três vezes bisavô.John Lowe fez sua estréia na semana passada em A Flor de Pedra, de Prokofiev, encenada pela Companhia de Balé Dança da Lanterna, que se exibiu no teatro The Maltings, cidade de Ely.Até onde consegui saber, Lowe, que já estreou veterano, fez bastante sucesso. Mostrou-se flexível, forte e gracioso de movimentos.Quero eu ter críticas assim, quando mandar para os amigos (7 e 2/3) cópias de meu mais recente, além de primeiro, CD.Aliás acabo de mudar de idéia quanto a seu título. Será como está lá em cima: Nunca é tarde.ConclusãoNunca é tarde. Mas se for, como diz aquela delícia de composição do Carlinhos Lyra, "me perdoa."BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

Tudo o que sabemos sobre:
Ivan Lessacrônicacolunalondres

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.