‘Já se foi o tempo de apontar o dedo’

Para a banda, em vez de ir contra quem baixa, gravadora precisa procurar soluções como o download patrocinado

Rodrigo Martins,

13 Abril 2009 | 00h00

"Como é que vocês estão fazendo com esse negócio de internet? O MP3 ferrou vocês?" É só ser reconhecido na rua que, batata, Rogério Flausino, de 40 anos, vocalista do Jota Quest, já é questionado quanto ao futuro da música e da própria banda numa época em que trocar arquivos na rede, mesmo ilegalmente, se tornou corriqueiro. "Todo mundo quer saber. Ontem mesmo um taxista veio com essa."A resposta não é fácil. Por um lado, a internet fez as vendas de CDs despencarem. Se, em 1998, a banda comercializou 800 mil cópias do álbum De Volta ao Planeta, em 2008, foram só 40 mil com La Plata. Por outro lado, a mesma web também permitiu ao Jota Quest ficar mais próximo do público e o MP3, amaldiçoado como o responsável por estraçalhar com a indústria fonográfica, já fez o grupo vender 1 milhão de celulares com músicas embarcadas.Entre esses dois extremos, a banda, um quinteto formado em 1993 e contratado pela Sony em 1996, é mais otimista que pessimista. Para eles, defensores das gravadoras mesmo no novo cenário, a questão da pirataria tende a se resolver e o futuro – por que não o presente? – da música é mesmo na internet.Tanto que a banda lançou há um mês um site com material exclusivo e todos os discos – para escutar, não para baixar; está no MySpace, onde pôs o último CD para streaming 20 dias antes de lançar. Tem Twitter, YouTube, Flickr, blog e está no Orkut, onde "adotou" uma comunidade com 250 mil membros, na qual decidiu em votação a atual música de trabalho (veja ao lado)."A base principal de qualquer trabalho artístico hoje é a rede. Quando as pessoas querem buscar um som, vão ao MySpace, YouTube", analisa Rogério. "O principal objetivo é alimentar o fã, mas atraímos também outros públicos. A rede é instantânea, não precisa esperar jornal, TV para divulgar. E a informação se propaga em blogs, Orkut, etc.", diz o baixista PJ, de 40 anos.Nesse sentido, constatam que a barreira entre bandas do mainstream, como o Jota Quest, e undergrounds está caindo. Na web, a hierarquia é a mesma, com as mesmas possibilidades de divulgação. "Ficamos de olho no que os independentes fazem, como se divulgam", diz Rogério. "Mas a questão é que a maioria das bandas não quer ser pequena. A web é só um ponto de partida, é preciso tocar em rádio, ter divulgação. Isso ainda faz muita diferença."É aí que entraria o papel das gravadoras. Mesmo combalidas e com menor capacidade de investir, para o Jota Quest, elas ainda são fundamentais – eles mantém contrato com a Sony Music –, tanto com contatos com a mídia como para pagar a própria produção do disco."Há experiências como a do Radiohead (que liberou o download e permitiu às pessoas pagarem se quisessem) e que fizeram sucesso. Só que estamos no Brasil, não temos um mercado mundial", diz PJ. "Para artistas novos, é muito mais complicado se projetar sozinho. Todos os exemplos que temos hoje de músicos que fizeram muito sucesso fora de gravadoras são de artistas que se construíram antes em gravadoras", completa o baterista Paulinho Fonseca, de 40 anos.Segundo a banda, o fato de as gravadoras estarem revendo seu papel e transformando-se de vendedoras de discos em agenciadoras de artistas dará sobrevida a elas. "A crise está no modelo. Ninguém mais quer comprar CD, ele perdeu valor. Eu mesmo só escuto músicas em MP3. É dureza digitalizar o CD", diz PJ, que confessa "baixar, mas também comprar música".Rogério constata que hoje é impossível parar a troca de arquivos, que se tornou rotineira. Para ele, uma das soluções seria as gravadoras fecharem acordos com portais e patrocinadores para os usuários baixarem à vontade, de graça ou pagando pouco, num modelo parecido com o da gravadora Trama. "Já se foi o tempo de apontar o dedo para os internautas e chamá-los de criminosos. O ideal seria se as grandes empresas pagassem. Os consumidores agradeceriam e os artistas e gravadoras seriam pagos."Outra forma seria distribuir em novos formatos, como celular. O disco anterior, Até Onde Vai, por exemplo, vendeu 150 mil cópias em CD. No celular, foram 800 mil. O atual, que vendeu até agora 40 mil em CD, em celular teve 280 mil.

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