Jardim de lixo é atração na cidade mais limpa da Índia

O atípico jardim de Pedra de Nek Chand recebe diariamente uma média de 5 mil visitantes

Efe,

16 Janeiro 2009 | 16h18

Chandigarh, uma cidade atípica na Índia desenhada pelo arquiteto suíço Le Corbusier e considerada a cidade mais limpa do país, mostra hoje orgulhosa um imenso jardim de resíduos como principal atração turística. A cidade, capital dos estados de Punyab e Haryana, no norte da Índia, é uma excentricidade dentro dos caóticos modelos urbanísticos indianos e uma raridade em um país onde impera o lixo.  Projetada Le Corbusier em 1951, Chandigarh se distribui como um imenso tabuleiro de xadrez em setores quadriculados, separados por amplas avenidas arborizadas, e foi declarada em 2007 a "cidade mais limpa" da Índia em um estudo da consultoria AC Nielsen sobre 18 cidades indianas. Talvez por isso, a "impecável" cidade de Punyab exibe com orgulho um companheiro em outro tempo clandestino instalado em seus limites: o Jardim de Pedra de Nek Chand, que se transformou em sua principal atração ao reunir diariamente uma média de 5 mil visitantes. Este curioso museu-jardim abrange um recinto de mais de 20 hectares composto por infinidade de resíduos que incluem de cimento residual até tomadas, cabos, barris oxidados ou restos de plástico, metal, vidro e louça. "É impressionante, vim aqui pela minha filha, mas não esperava encontrar um lugar tão surpreendente", comenta à Agência Efe Rajesh Vaid, um dos muitos turistas que lotam o jardim. Nek Chand, o octogenário criador do entorno, confessou há tempo ao jornal inglês The Independent que a chave de seu sucesso reside no fato de que, quando os visitantes saem de seu parque, "o fazem com um sorriso". Desde a entrada do museu, com uma porta minúscula de concreto que desemboca em um sinuoso corredor ladeado por dezenas de vasilhas quebradas, o microcosmo criado por Chand oferece seu contraponto ao proclamado asseio de Chandigarh. Mais adiante, o Jardim de Pedra se vai mostrando em diferentes períodos como um labirinto de caminhos de cimento com milhares de enigmáticas esculturas, como uma paragem de intermináveis mosaicos de cubos de cerâmica rota, como uma série de anfiteatros com paredes revestidas de tomadas ou como um conjunto de altas cascatas de água reutilizada. Mas este parque de cimento e rocha, feito com a escória, o ferro-velho e outros dejetos que iam sobrando na construção da cidade, nem sempre teve o reconhecimento internacional de que hoje goza, porque durante anos cresceu em segredo. Tudo começou quando Nek Chand, um hindu nascido em 1924 onde atualmente é o Paquistão, e sem possibilidade de exercer estudos superiores, chegou com a mulher a Chandigarh para trabalhar como inspetor de estradas, em 1950. Oito anos mais tarde, Chand começou a colher, nas horas vagas, pedras de formas sugestivas por diversão, para pouco depois aproveitar todo tipo de resíduos ao seu alcance. Assim, o humilde inspetor de estradas esculpiu, primeiro sozinho e depois com a ajuda da mulher e dos filhos, verdadeiras legiões de animais e pessoas de materiais reciclados, embora sempre com medo de que sua criação fosse destruída, por estar em terreno público. Este temor se materializou em 1974 quando o segredo, cuidadosamente guardado por uns poucos amigos próximos, foi descoberto durante trabalhos governamentais de limpeza na zona florestal onde fica o museu-jardim. Apesar de a história poder terminar mal, e, de fato, ele estar perto de ser derruído em mais de uma vez pelas autoridades da asséptica urbe de Le Corbusier, a cobertura de sua existência pela imprensa permitiu que o Jardim de Pedra, ao qual durante décadas Chand deu forma, siga de pé hoje. Cinquenta anos após embarcar em seu particular aventura, o octogenário artista, que expôs mostras de sua obra nos Estados Unidos e na Inglaterra, defendeu com profunda singularidade a existência de seu éden pessoal dedicado ao espírito da criatividade indiana: "É lixo, mas é arte".

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