Jazz intelectual para o povo

Autor do primeiro disco do gênero a vender mais de 1 milhão de cópias, pianista Brubeck morre nos Estados Unidos de insuficiência cardíaca aos 91 anos

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

06 Dezembro 2012 | 02h08

O pianista, compositor e arranjador Dave Brubeck, um dos maiores nomes do jazz, morreu ontem pela manhã de insuficiência cardíaca no Hospital Norwalk, em Hartford (Connecticut). Tinha 91 anos (faria 92 hoje).

Brubeck foi mentor de inúmeros notáveis do jazz a partir da segunda metade do século 20. Ao lado de Yusef Lateef (91 anos), Ornette Coleman (82 anos) e Sonny Rollins (82 anos), ele era um dos remanescentes de uma era de ouro do gênero.

Quatro de seus seis filhos (Darius, Dan, Matthews e Chris) se tornaram músicos profissionais. Vários ex-presidentes americanos foram seus fãs, incluindo o atual, Obama, que, aos 10 anos, ganhou do pai, em Honolulu, uma bola e um ingresso para um concerto do pianista, que ele guarda até hoje.

Seu jazz era tido como "intelectual", por conta das referências eruditas (há influência melódica de Chopin no disco Time Further Out, por exemplo) e dos compassos quebrados, do sincopado, do serialismo. Mas, contraditoriamente, foi um dos primeiros a popularizar o gênero, bastante talvez por seu conhecimento do blues, da percussão polirrítmica africana, do desenvolvimento harmônico.

Seu disco Time Out, lançado por seu quarteto em 1959, foi um dos primeiros álbuns de jazz a vender milhões de cópias. Continha o primeiro grande sucesso mundial do gênero, Take Five (composto pelo saxofonista de Brubeck, Paul Desmond). Com sua capa de expressionismo abstrato, os improvisos circulares e o virtuosismo no instrumento, o disco virou referência mundial.

Brubeck foi objeto de um documentário produzido por seu amigo Clint Eastwood, Dave Brubeck - On His Own Sweet Way (2010). Sua história é a de uma unanimidade, seja entre colegas ou ouvintes. Um dos selos mais famosos, o mítico Fantasy, fundado em São Francisco em 1949, ao contratar seu primeiro artista, não teve dúvida: escolheu Dave Brubeck, então um jovem pianista que vinha de Oakland.

Infância bucólica. Ele nasceu em Concord, perto de São Francisco. David Warren Brubeck passou a infância em um ambiente bucólico, no campo, e seus dois irmãos também se tornaram músicos. Em 1943, passou a tocar numa banda marcial, onde conheceria seu maior parceiro, Paul Desmond. "O saxofone de Paul Desmond e o piano de Dave Brubeck são duas urnas fechadas, cada uma delas contendo a chave que abre a outra", disse a escritora Isak Dinesen.

Em 1944, após a graduação, Brubeck se alistou no Exército, passando a tocar na banda militar. Foi recrutado para o front e acabou parando em Metz, na França. Não chegou a lutar, pois um de seus comandantes o ouviu tocando com a Cruz Vermelha e o tirou da frente de combate.

Segundo escreveu o crítico Ira Gliter, os anos 1950, ápice da arte de Brubeck, ficaram marcados no jazz pelo alcance popular, pelo cool jazz. Os pianistas Brubeck (o segundo jazzista a receber tal destaque, logo depois de Louis Armstrong) e Thelonious Monk saíram na capa da revista Time e foi realizada a primeira edição do grandioso Newport Jazz Festival. Em 1946, ele passou a liderar seu primeiro grupo, um octeto.

"Essa música 9 por 8 do Dave Brubeck é difícil. É difííícil", brincou Arnaldo Baptista, o lendário líder dos Mutantes, na Virada Cultural. Ele acabara de tocar Blue Rondo à la Turk, um clássico de Brubeck, um dos seus ídolos. Recentemente, o selo de discos da Livraria Cultura relançou um álbum clássico do pianista, Bossa Nova USA, com The Dave Brubeck Quartet.

Em entrevista ao Estado, há dois anos, Brubeck foi indagado a respeito de seu trabalho favorito, entre tantos. "É difícil escolher, mas um de meus favoritos do clássico quarteto é o disco gravado ao vivo no Carnegie Hall (no dia 21 de fevereiro de 1963). Acho que foi, de fato, nossa melhor performance tocando músicas que estavam em Time Out e Time Further Out. Naturalmente, o álbum Time Out deve figurar também no topo da lista dos favoritos. Quanto a regravar Take Five, não mudaria algo que funciona há 50 anos. Ainda tocamos Take Five em todos os nossos concertos. Nunca me canso de tocá-la e acho que há ainda muito a explorar nela."

Em 1970, durante um concerto em Anchorage, no Alasca, o pianista e maestro brasileiro João Carlos Martins conheceu Brubeck, que estava na plateia. Tornaram-se bons amigos.

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