Jean Grenier e Camus, ou a filosofia à beira-mar

Edição brasileira de As Ilhas convida à reflexão sobre amizade entre os escritores

Gilles Lapouge, O Estadao de S.Paulo

06 Dezembro 2009 | 00h00

É excelente que o Brasil possa ler As Ilhas, de Jean Grenier (1898-1971), publicado em 1933. E também que a "ressurreição" dessa obra coincida com o cinquentenário, próximo, da morte de Albert Camus (1913-1960). Não só a obra de Grenier e a de Camus podem ser lidas como se fossem uma o reflexo da outra mas, além disso, os dois se conheciam muito. O jovem Albert Camus foi aluno de Jean Grenier em Argel, antes da guerra. Para Camus, As Ilhas (Perspectiva, 176 págs., R$ 38, tradução de Aimeé Amaro de Lolio) foi um desses "choques" que impelem um estudante a escrever e, mais tarde, receber o prêmio Nobel.

Ao falar sobre os entrelaçados e as bifurcações que ligam uma à outra as obras dos dois escritores, o prefácio de Patrick Corneau é consistente. Mas tem um inconveniente: Corneau inicia seu texto observando que Jean Grenier é uma "tonalidade, uma voz". Em seguida, ele não se dedica a nos fazer ouvir essa voz tão rara, uma voz à beira do silêncio, mas a despejar teorias filosóficas.

Claro que Jean Grenier e Albert Camus são filósofos, mas a sua grandeza é que o filósofo, nos dois casos, foi engolido, como se digerido, pelo escritor. O que não significa que a carga filosófica de As Ilhas ou de O Estrangeiro seja ínfima. Não. Mas ela é comunicada por imagens, alegrias intensas ou soluços, o movimento branco de uma nuvem, a pele das mulheres.

É preciso imaginar Argel em 1930. A capital da Argélia francesa é uma cidade marítima, mágica. Albert Camus é um jovem belo e revoltado, ávido de felicidade e de sensualidade (as mulheres, a areia, o sol). Ele é filho da pequena burguesia "pied noir" (colonos franceses vivendo na Argélia). De outro lado, há também um homem de 30 anos, Jean Grenier. Que não nasceu nesse Mediterrâneo feliz, mas na Bretanha das brumas, das tempestades, da angústia e do infinito do oceano. Nomeado professor de filosofia em Argel, o bretão Jean Grenier transforma-se num ardoroso "mediterrâneo".

Jean Grenier dá aulas de filosofia. No início de 1930, tem à sua frente um "jovem de costas largas, olho vivo, ar decidido". Ele lhe diz: "Coloque-se na primeira fila, com os insubordinados". À noite, ele fala à sua mulher de um "jovem promissor". Camus é arisco. Um dia, não comparece à aula. Grenier é informado que ele sofreu uma hemorragia pulmonar grave. O professor chama um táxi e vai ao hospital. Camus fica surpreso. Glacial. Diz apenas "bom dia". Orgulho, pensa Grenier, pudor.

No ano seguinte, já no curso superior, Albert Camus está mais sociável. Jean Grenier fascina um pequeno grupo de alunos. Reúne-se com eles, discutem filosofia. Ele sugere livros, Stendhal, Dostoievski, Nietzsche, Platão, Spinoza. Toda a obra de Marcel Proust. Os alunos se fartam de leituras, mas Camus continua sendo o que deseja ser: "um bárbaro feliz". A vida, apenas a vida! O odor das artemísias sobre as dunas, o gosto dos lábios de uma mulher, a felicidade.

Jean Grenier compartilha dessa despreocupação, mas existe a morte. Camus dizia que "Jean Grenier me torna mais sério". Mais tarde, em O Avesso e o Direito, ele diz: "É verdade que os países mediterrâneos são os únicos em que posso viver, que eu amo a vida e a luz, mas é verdade também que o trágico da existência fascina o homem e que o silêncio mais profundo faz parte dela. Entre esse avesso e direito do mundo, eu me recuso a escolher".

DÂNDI

Mas nessa época, mesmo se vendo um pouco trágico, o belo Camus é como qualquer jovem dos países do Sul: obcecado por sua própria pessoa, adora se vestir, cultiva a imagem de dândi. No seu pequeno grupo de rapazes e moças, todos são esnobes. Para ser "chique", nunca se diz "você", mas "senhor", até para um companheiro de futebol. Isso é ter "classe".

Essa é a imagem de um Camus insólito, sobretudo quando o comparamos com o homem austero, arisco, tenso, trágico, que ele se tornará mais tarde, após a loucura da guerra e a sua chegada a Paris. Mas, nesses anos de 1936, 1937, Camus é assim: um janota. Passeios em bandos nas avenidas de Argel. Belas camisas. Camus se especializa em sapatos magníficos, de um marrom sempre bem lustrosos, mas sem solas. "Ou se é esteta, ou não".

Crise de adolescência? Mas Camus já está com mais de 20 anos e a fase dura. Um pouco mais tarde ele se casa (um primeiro casamento desastroso). Quando sua mãe lhe pergunta o que deseja de presente de casamento, a resposta é direta: "Doze pares de meias brancas".

Mas, por trás, existe um outro Camus. Que confessa ao seu mestre: "Tenho um desejo muito forte de ver diminuir tanta infelicidade que envenena o mundo".

Estamos em 1935. Ruídos de guerra. Horror do nazismo. Rebeliões sociais. A intelectualidade francesa se alia ou à extrema direita (Maurras) ou ao comunismo. Jean Grenier é de esquerda, claro, mas desconfia, e desconfiará durante toda a sua vida, das "prisões intelectuais". Depois de flertar com o Partido Comunista, ele se afasta.

É dessa época um episódio apaixonante, pois ilustra bem a estranha figura de Grenier, sua nobreza, seu respeito pelo outro. Albert Camus deseja inscrever-se no Partido Comunista e se abre para o seu mestre. Este, numa só palavra, poderia liquidar com esse projeto ainda em embrião. Mas Grenier respeita a liberdade do aluno. Os dois amigos conversam, discutem. O mestre não deseja, absolutamente, exercer alguma pressão sobre Camus. E mais espantoso: respeita tanto o outro que não apenas não coloca obstáculos à entrada dele no partido, mas, ante o desejo do discípulo, ele até o estimula a se matricular. Isso valeu uma carta surpreendente de Camus ao seu mestre, em que ele diz: "O senhor tem muita razão ao me aconselhar a me inscrever no partido Comunista...".

No nobre prefácio que escreveu para As Ilhas, em 1959 (25 anos após a primeira edição do livro), Albert Camus não esconde que ficou hipnotizado e influenciado pela admirável prosa de Jean Grenier, sua beleza quase invisível. É verdade: o que há de mais belo em Camus, os textos sobre a Argélia "trágica e feliz" como O Verão, poderiam ser de Grenier, mas são menos suaves, menos resignados.

Um dos grandes livros de Camus escritos após a guerra será sua peça Calígula, sobre o delirante imperador romano que nomeou o seu cavalo "cônsul do Império Romano". Calígula é um grito soberbo e rasgado, uma das três obras que o escritor qualificou como "meus três absurdos". Ora, se retornarmos à época de Argel, 1935-1939, vamos descobrir Calígula: Albert Camus conheceu Calígula por meio de Grenier.

O mestre aconselhou Camus, quando ele tinha apenas 16 anos, a ler A Vida dos 12 Césares, de Suetônio, onde a vida de Calígula é narrada. Grenier procura destacar para seus alunos, entre eles Camus, o grito atroz do imperador louco: "Eles são todos culpados". Alguns anos mais tarde, em 1933, em As Ilhas, Grenier retorna a Calígula: "Vendo que se prepara para sacrificar uma vítima no altar, Calígula segura com as mãos cheias o machado e assume o lugar do sacrificador. Um dia, Calígula manda matar todos os acusados, testemunhas e advogados de um processo, gritando: "São todos culpados"! Se fosse feito um testamento em favor de Calígula, ele mandaria envenená-los dizendo que, sem isso, o testamento teria sido uma piada".

Como não notar que nessas poucas frases a totalidade da magnífica peça de Camus, Calígula, escrita após a guerra, já estava presente?

Não se trata de insinuar que Camus teria extraído de Grenier o seu estilo tão puro, como em As Ilhas, ou que tomou emprestado de Grenier o tema de Calígula. Mais simplesmente, o professor iluminou alguns dos sonhos, angústias e transes do jovem Camus. Ele o inflamou. O "sol negro" que foi Calígula iluminou os sóis dourados de Argel e queimou juntos o mestre Jean Grenier e o discípulo Albert Camus.

ADMIRAÇÃO

Após a guerra, os dois homens continuarão próximos, mas a vida em Paris os distancia. Albert Camus dirige o jornal da Resistência, Combate. É glorificado após a publicação de O Estrangeiro, O Mito de Sísifo e Calígula. Jean Grenier, por seu lado, sempre discreto, mais lento, mais meditativo, menos ávido de ação, é um personagem importante da vida literária.

Eis aqui um último sinal da admiração recíproca entre mestre e discípulo. No início da guerra, Albert Camus tinha concluído seu mais belo romance, O Estrangeiro. Jean Grenier conhecia o texto, mas não gostava muito dele. Mas tinha confiança em Camus. Da mesma maneira que o encorajou a entrar para o Partido Comunista, enquanto ele próprio se afastava do comunismo, Grenier apoiou o livro, reconhecendo o gênio, sem dúvida, mas não o apreciando.

Jean Grenier ou o respeito absoluto pela liberdade do outro. Mestre e discípulo? Sim, à maneira dos filósofos da Academia de Platão, em Atenas: dois jovens que, nos crepúsculos perfumados de Argel, em 1938, caminhavam juntos, falando sobre mulheres, sobre a morte, a justiça, a honra, à margem do mais belo mar do mundo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.