Franck Fife/AFP
Franck Fife/AFP

Jornal, e não treinador de Lavillenie, atribuiu vitória de Thiago Braz a candomblé

Francês manteve críticas à postura do público no Engenhão, que vaiou rivais do brasileiro 

Andrei Netto, correspondente em Paris, O Estado de S.Paulo

16 Agosto 2016 | 21h20

Derrotado pelo brasileiro Thiago Braz da Silva na disputa pela medalha de ouro no salto com vara na noite de segunda-feira, o francês Renaud Lavillenie e seu treinador, Philippe d’Encausse, criticaram de forma impiedosa as vaias da torcida presente no estádio contra os rivais estrangeiros que disputavam a prova. Inconformado com o que considerou falta de "fair play" do público nas arquibancadas do Engenhão, o saltador chegou a comparar os Jogos Olímpicos do Rio aos realizados pela Alemanha nazista em 1936.

As críticas começaram antes mesmo da derrota. Em uma das imagens emblemáticas da final, Lavillenie apareceu frente à câmera pedindo silêncio e reprovando a postura da torcida no momento em que se concentrava para tentar se manter na disputa pelo ouro. Segundo o francês, a final corria bem enquanto a disputa não havia ultrapassado a barreira dos 5,85 metros. Mas uma vez que Silva também superou a barreira, todos os competidores passaram a sofrer vaias do público, desestabilizando a concentração dos atletas, supostamente em benefício do brasileiro. 

"Essas vaias mostram que os espectadores não tiveram nenhum respeito pelos valores olímpicos", disparou, elogiando seu rival. "Thiago foi incrível. Não tenho nada a dizer a respeito dele." Mais tarde, ainda muito decepcionado, Lavillenie lamentou à imprensa francesa a prática das vaias pelo público no Rio. "Não foi a primeira vez que me vaiaram. Além da dificuldade e do cansaço, não precisamos de mais isso. É muito perturbador e irritante, porque você sente a maldade do público. O atletismo não é o futebol. Se for para vaiar, que fiquem em casa em frente à televisão", disparou. 

Então Lavillenie fez a comparação com a Alemanha de Adolf Hitler. "Em 1936, a torcida estava contra Jesse Owens. Não tínhamos visto isso desde então." Minutos depois, o próprio atleta pediu desculpas pelo Twitter pelas declarações sobre o nazismo, embora tenha mantido as críticas sobre a postura dos torcedores brasileiros. "Perdão pela má comparação que eu fiz. Foi uma reação no calor da situação e eu compreendo agora que foi errado", reconheceu. "Desculpas a todos."

Na mesma linha de reprovação ao público dos estádios, Philippe d'Encausse, o treinador do atleta francês - que havia vencido a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, e é o atual detentor do recorde mundial e ex-recorde olímpico -, mostrou-se admirado com a performance de Thiago Silva, que as 22 anos bateu o recorde da competição. "Quando ele já tinha o peso de 10 saltos nas pernas, Thiago chegou e saltou 6,03m", disse ele. "É um país bizarro", completou, falando do Brasil e comentando as vaias. 

A frase foi utilizada pelo jornal Le Monde, cujo jornalista atribuiu a performance do brasileiro ao candomblé. Mal interpretada, a declaração acabou atribuída ao treinador francês, o que aumentou polêmica sobre o assunto ontem.  

Na imprensa francesa, o resultado do salto com vara repercutiu com misto de surpresa e de imensa decepção, porque Lavillenie era tido como franco-favorito à medalha de ouro. Narradores e comentaristas em canais de TV como a rede pública France Télévisions também lamentaram as condições climáticas adversas da final. Além da chuva, o vento forte e o atraso nos saltos teriam prejudicado a competição.

Já o jornal Le Monde ressaltou a performance do brasileiro, que se tornou "o sétimo atleta com mais alto salto de todos os tempos". 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.