Jornalistas da Reuters relembram dia com Bush no 11 de setembro

Dois jornalistas da Reuters viajaram com o então presidente norte-americano George W. Bush em 11 de setembro de 2011, em uma jornada que começou como uma mera visita à Flórida para promover a educação.

STEVE HOLLAND AND ARSHAD MOHAMMED, REUTERS

11 de setembro de 2011 | 10h37

Leia algumas das memórias dos dois repórteres naquele dia e nos seguintes.

Arshad Mohammed:

"Senhor presidente, o senhor tem conhecimento das notícias de que um avião bateu em Nova York?"

Eu fiz essa pergunta para Bush em uma sala de aula na Flórida, onde, sem eu saber, ele tinha acabdo de ouvir que a segunda torre do World Trade Center tinha sido atingida por um avião.

Esses minutos na escola Emma E. Booker ilustraram as alegrias e tristezas de fazer parte da mídia que viaja a todos os lugares com o presidente.

De uma lado, estávamos presenciando a história em tempo real, vendo o chefe da Casa Branca Andrew Card cochichar no ouvido de Bush o ataque, e tendo acesso direto ao presidente para perguntar à vontade.

De outro lado, o fluxo de informações é extremamente controlado e nossas perguntas com frequência não são respondidas.

Sabíamos que a primeira torre tinha sido atingida, mas não sobre a segunda, e nã tínhamos ideia de que Bush tinha sido alertado por Card.

Bush não respondeu minha pergunta, e pouco depois surgiu na biblioteca da escola para dizer: "Hoje nós tivemos uma tragédia nacional. Dois avisões bateram no World Trade Center, em um aparente ataque terrorista ao nosso país".

Pego de surpresa pelo ataque, Bush deu uma resposta inicial e passou o restante do dia voando no Força Aérea Um fugindo de um inimigo incerto ao invés de retonrar imediatamente para Washington, um movimento que levantou dúvidas sobre sua liderança em meio a uma crise.

Apenas dias depois, quando ele visitou os destroços do World Trade Center, ele se recuperou com um discurso dramático e improvisado, prometendo punir quem tinha feito aquilo.

FORÇA AÉREA EM DESTINO MISTERIORO

Na escola, antes de entrarmos no Força Aérea Um, uma equipe da segurança e cães farejadores checaram os jornalistas, uma medida não habitual, uma vez que já havíamos passado por uma triagem, o que sugeria que o Serviço Secreto não queria arriscar.

Poucos minutos após a decolagem, ficou claro que não estávamos voltando para casa, pois não passamos de novo pela costa, como havíamos feito um dia antes ao chegar à Flórida. Ao invés disso, voamos por cima da terra, a uma altitude bem acima da normal.

Estávamos vendo imagens ao vivo dos ataques em uma televisão a bordo.

Não tínhamos ideia de para onde estávamos indo, até que um assessor de imprensa nos disse que nosso destino era a Base da Força Aérea Barksdale, na Louisiana, onde Bush iria fazer um comunicado, e que poderíamos noticiar o que ele diria, mas não o lugar onde estava.

Em terra, não havia toda a pompa e cerimônia que normalmente aguardam o presidente.

Em vez disso, Bush desceu do Boeing 747, com soldados ao redor, e um oficial em um momento ordenou bruscamente a outro "vai para aquela asa, agora!"

Foi como se os militares, com toda a sua força, temessem que o avião do presidente não estivesse seguro em meio a uma grande pista em uma base onde sua presença era um segredo.

Proibidos de usar nossos telefones celulares para que as ligações não fossem rastreadas e "entregassem" a localização de Bush, repórteres foram levados a uma sala de entrevistas sem janelas. Assessores correram para montar um pódio com duas bandeiras para Bush fazer um comunicado que poderíamos depois divulgar como realizado em uma "localização não conhecida."

Enquanto esperávamos, alguém afirmou que notícias da chegada de Bush foram dadas em uma emissora de TV local. Rapidamente confirmando essa informação com um oficial da Força Aérea, um assessor nos disse que podíamos ligar para nossos editores.

Após prometer "caçar e punir aqueles responsáveis por esses ataques covardes," Bush voltou ao Força Aérea Um com muito menos pessoal, deixando para trás assessores, agentes do Serviço Secreto e membros da imprensa, incluindo eu, que voariam a Washington em um avião reserva da Força Aérea.

Steve Holland:

A maioria dos membros da imprensa da Casa Branca que estavam na Flórida para cobrir Bush se encontraram abandonados. A aviação civil foi bloqueada e apenas no dia seguinte desistimos de voltar para casa, fretamos ônibus e nos enchemos de petiscos para uma viagem durante a madrugada de volta a Washington.

Presos no trânsito na manhã seguinte, a primeira sensação que tivemos além das imagens de TV foi uma vista do Pentágono a partir da rodovia I-395. Fumaça ainda subia aos céus em uma grande escoriação no edifício, feita por um avião sequestrado.

A Casa Branca estava cercada por um cordão militar. Helicópteros sobrevoavam. Soldados carregavam rifles e confrontavam os transeuntes. Havia uma sensação de que os Estados Unidos estavam em guerra.

Anos depois, os norte-americanos reparariam na habilidade de Bush de estudar os fatos e tomar rapidamente uma decisão - rápido até demais, diriam alguns. Mas esse líder, o que decide, ainda não tinha aparecido até setembro de 2001.

No final, foi um presidente que demorou meses para decidir sobre sua política em relação às células-tronco e, após obter um grande corte de impostos do Congresso na primavera passada, parecia mais aplicado em se definir em relação aos assuntos internos.

RASTRO DE FUMAÇA

Bush completou sua transformação em líder de guerra em 14 de setembro, em uma visita ao Marco Zero, no Sul de Manhattan.

O Força Aérea Um pousou em Nova Jersey, em vez de Nova York, por medidas de segurança, e Bush e seus assessores voaram de helicóptero para Manhattan. Sentia-se o cheiro de combustão das torres gêmeas a quilômetros de distância, e um rastro de fumaça que passava a Estátua da Liberdade, símbolo da abertura dos EUA ao mundo, era uma dolorosa imagem.

No chão, uma grossa camada de pó cobria as calçadas e as ruas a quarteirões do Marco Zero. Uma fileira de bombeiros, com seus casacos cobertos por poeira, estava em silêncio ao longo da carreata, em uma breve pausa na procura para encontrar os restos mortais de seus colegas. A estabilidade dos edifícios próximos era incerta, o que aumentava a preocupação.

Onde uma vez estavam as torres, havia apenas morte e destruição. Vigas subiam em ângulos estranhos. Pilhas de escombros estavam por toda a parte.

Bush não tinha planos para discursar para os bombeiros enquanto ele andava com o então prefeito de Nova York, Rudy Giuliani, mas gritos de "EUA, EUA" da multidão o fizeram mudar de ideia.

Ele escalou os restos de um caminhão de bombeiros, colocou sua mão no ombro de um deles, chamado Bob Beckwith, e falou em um alto-falante as palavras que definiriam o restante de seu mandato na Casa Branca.

"Posso ouvir vocês! O restante do mundo ouve vocês! E as pessoas - e as pessoas que derrubaram esses edifícios nos ouvirão em breve."

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