Jovem salvo de agressão se emociona

Adriano Silva, de 20 anos, conta que teria morrido se reportagem não tivesse chegado

JOSÉ MARIA TOMAZELA , ENVIADO ESPECIAL / LORENA, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2011 | 03h04

O rapaz salta da carreta e caminha em direção aos repórteres com um misto de surpresa e alegria no rosto. "São os anjos que te salvaram", diz Cristina Gonçalves da Silva, sua mãe. "Sei que são eles", responde, emocionado, como se os jornalistas fossem velhos conhecidos.

Adriano Carlos Gonçalves da Silva, de 20 anos, foi salvo pela reportagem do Estado de agressores em agosto de 2010, em Lorena (SP). Os três homens que o tinham amarrado, espancado e o arrastavam em direção ao Rio Paraíba o soltaram quando o carro do jornal irrompeu no local. Silva diz que eles iam matá-lo.

O desespero do jovem, gritando por socorro e correndo na direção do veículo, foi captado pelo repórter fotográfico Epitácio Pessoa. Suas imagens renderam ao Estado o Prêmio Esso de Jornalismo 2011, na categoria Fotografia.

Na última quinta-feira, a reportagem voltou a Lorena à procura de Adriano. Não foi difícil localizar a família de Buiú, apelido pelo qual é conhecido no bairro Olaria de São Pedro, onde mora com o pai, o caminhoneiro Benedito Carlos da Silva, de 57 anos, a mãe, de 53, o irmão Anderson, de 26, e a irmã Andresa, de 24. A casa é modesta, mas própria.

Adriano estava trabalhando numa indústria de reciclagem. O antigo catador de sucata agora é pago para amarrar carga em carretas. É trabalho informal, que ele divide com o irmão e rende a cada um entre R$ 20 e R$ 40 por dia. "Quando chove, não há descarga e a gente não ganha nada." Ele guarda parte do dinheiro para comprar uma bicicleta. O restante entrega à mãe para ajudar com as despesas. "Quando sobra, tomo uma cerveja no bar."

O pai está aposentado, mas continuava trabalhando. Na última viagem, em julho, o caminhão caiu numa ribanceira. "Fiquei quase uma hora preso na ferragem, vendo o sangue escorrer da cabeça e sentindo o diesel pingar nas costas." Demitido, ele ainda se recupera das sequelas. "Minha coluna não presta mais."

Dona Cristina também sofre com pressão alta e coluna estropiada após anos de trabalho numa fábrica. Demitida, entrou com pedido de auxílio-doença, negado. "Disseram que dor na coluna não é doença, mas vivo a base de remédio."

Os filhos ajudam, mas é a aposentadoria de salário mínimo de Benedito que sustenta a casa em que, com exceção de Adriano, católico, todos são evangélicos. Foi a fé que ajudou a mãe a superar o trauma sofrido pelo filho.

O pai conta que o menino tinha descolorido o cabelo e ele mandou que fosse cortar. "Disse que a polícia não gosta desse tipo de cabelo. Ele foi até o barbeiro, mas não voltou."

Souberam depois que o garoto tinha sido abordado por um homem num carro. O dono de uma academia de paintball o acusava de ter tentado furtar o local. Adriano negou, mas o homem afirmava que ele estava nas imagens do circuito de segurança. "O menino duvidou e ele disse: 'Vamos lá que te mostro'. Quando ele subiu no carro, tinha outro homem escondido que o agarrou pelo pescoço e amarrou os braços para trás", retoma o pai.

Ameaça. Adriano entra na narrativa para revelar que um dos homens usou um celular para dizer a um terceiro que já o tinham pegado. Levado para um barracão em local ermo, recebeu socos, pontapés e apanhou com uma mangueira. Um quarto homem perguntou: "Você acha que vai voltar para casa? O último que veio não voltou". Levaram Adriano para a estrada e disseram que iam matar e jogar o corpo no rio, com uma pedra no pescoço. "Quando um deles foi pegar a arma no carro, vocês chegaram."

Na quinta-feira, ele voltou pela primeira vez ao local onde tudo aconteceu, acompanhado pelos pais e pela reportagem. O casal, que guardou o jornal com a notícia sobre o caso, emociona-se.

A mãe conta que, após ser libertado, o filho chegou assustado em casa e chamou a irmã. "Ele não quis me contar por causa da minha pressão alta." Ela viu as costas do garoto cobertas por vergões e disse que se lembrou do suplício de Cristo. "Vocês foram o livramento que Deus mandou."

Por duas semanas, Adriano só saiu de casa para ir à polícia e ao médico. "De tão assustado, ele passou a dormir comigo", contou a mãe.

Três homens foram identificados como agressores e respondem por cárcere privado, lesões corporais, ameaça e constrangimento ilegal. A Polícia Civil remeteu o inquérito para o Fórum Criminal em dezembro. Os acusados foram intimados a apresentar defesa. O pai conta que, há algumas semanas, um deles mandou um recado, oferecendo R$ 800 para que o processo fosse retirado. Ofereceram o táxi para levar o rapaz a um advogado. "Perguntei ao menino se ele achava que era isso que valia a vida dele."

Adriano segue levando vida modesta. "Ele estudou só até o 4.º ano, mas é honesto, trabalhador e amoroso com a família. É o que a gente espera de um filho", disse o pai.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.