Juiz deixa julgamento do Khmer Vermelho alegando interferência

Um juiz internacional renunciou ao posto em um tribunal apoiado pela Organização das Nações Unidas (ONU) por causa de uma suposta interferência do governo, que tenta bloquear novos julgamentos de pessoas que podem ter se envolvido com as atrocidades cometidas pelo Khmer Vermelho.

PRAK CHAN THUL, REUTERS

10 de outubro de 2011 | 15h57

O tribunal conjunto da ONU e do Camboja informou em um comunicado na segunda-feira que o juiz de instrução Siegfried Blunk, da Alemanha, renunciou no dia 8 de outubro, após menos de um ano no cargo.

Autoridades cambojanas, incluindo o primeiro-ministro Hun Sen, manifestaram diversas vezes sua oposição a novos processos nas Câmaras Extraordinárias nas Cortes do Camboja (CECC), como o tribunal é conhecido, além de um segundo julgamento que está em andamento atualmente.

"Por causa dessas declarações repetidas, que serão percebidas como tentativa de interferência pelas autoridades do governo nos casos 003 e 004, o juiz de instrução internacional apresentou a sua renúncia", divulgou o ECCC.

A identidade dos indivíduos desses casos nunca foi tornada pública.

Até agora o tribunal gastou 100 milhões de dólares e determinou apenas uma sentença, uma pena de 35 anos de prisão trocada por 19 anos para Kaing Guek Eav, conhecido como Duch, por seu papel nas mortes de mais de 14 mil pessoas no notório centro de torturas S-21 em Phnom Penh. Muitos consideraram essa medida como indulgente demais.

O julgamento atual, por vezes referido como o 002, envolve Nuon Chea, que era o "Irmão Número 2" no regime ultra-maoísta do Khmer Vermelho, o ex-presidente Khieu Samphan, o ex-chanceler Ieng Sary e a mulher dele, Ieng Thirith, que era a ministra dos Assuntos Sociais.

Eles enfrentam várias acusações, incluindo crimes de guerra e crimes contra a humanidade, entre outras.

O premiê Hun Sen, ele mesmo um ex-quadro do Khmer Vermelho, não escondeu seu desprezo pela corte e argumentou que novos indiciamentos apenas reabririam feridas antigas.

Cerca de 1,7 milhão de cambojanos - um quarto da população - foram mortos entre 1975 e 1979, muitos deles torturados e executados.

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