Julgamento de ex-prefeito por chacina de Unaí é retomado

No primeiro dia de júri, depoimentos apontaram para envolvimento de Antério Mânica nos assassinatos

Leonardo Augusto, especial para O Estado, O Estado de S. Paulo

05 Novembro 2015 | 09h08

BELO HORIZONTE - O julgamento do fazendeiro e ex-prefeito de Unaí (MG) Antério Mânica, acusado de ser um dos mandantes da chacina na zona rural da cidade em janeiro de 2004, foi retomado nesta quinta-feira,5, com a apresentação de vídeos, gravações telefônicas e leitura de peças do processo ao júri. A expectativa do advogado assistente de acusação, Antônio Francisco Patente, é que o julgamento, que começou ontem, termine hoje à noite. Antério foi prefeito da cidade por dois mandatos.

Patente afirmou ter agendado para a sexta-feira, 6, na hipótese de o julgamento terminar hoje, reunião com procuradores do Ministério Público Federal responsáveis pelo caso para discutir o acionamento da Justiça com pedido de suspensão da delação premiada feita pelo empresário cerealista Hugo Pimenta, também acusado de ser mandante na chacina, cujo julgamento está marcado para o próximo dia 10. Com a delação, Hugo poderá ter redução de pena, caso seja condenado.

O advogado assistente de acusação afirma que ao selar o acordo para delação, Pimenta se propôs a contribuir em relação às acusações tanto de Norberto Mânica, outro acusado de ser mandante da chacina, como de Antério, seu irmão. "Hugo não colaborou em relação a Antério, mas apenas na acusação de Norberto", disse Patente. Norberto foi condenado a 100 anos de prisão em julgamento encerrado na  sexta-feira, 30.

Patente diz ainda que nessa quarta-feira, 4, antes de Pimenta iniciar depoimento como testemunha de acusação no julgamento de Antério, já no auditório da Justiça Federal em Belo Horizonte, o empresário fez sinal de positivo com o polegar para o fazendeiro. "A gente costuma saudar  os amigos quando os encontra", disse o advogado. Para Patente, isso, juntamente com o fato de Pimenta não ter contribuído na acusação de Antério, poderia significar um acordo entre os dois, o que, também na avaliação do assistente da acusação, poderia ajudar na suspensão da delação do empresário.

O advogado de Antério Mânica, Marcelo Leonardo, não se pronunciou hoje na chegada para o segundo dia de julgamento do fazendeiro.

Primeiro dia. No primeiro dia do julgamento de Antério Mânica, o delegado da Polícia Civil de Minas Gerais, Wagner Pinto de Souza, depôs como testemunha de acusação e afirmou que Antério participou do crime.

Segundo o delegado, a presença de um veículo Fiat Marea, que pertenceria a Antério, próximo a um posto de gasolina na noite anterior à chacina, onde se encontraram os pistoleiros contratados para os assassinatos e o cerealista José Alberto de Castro - condenado na semana passado acusado de ser um dos mandantes do crime -, é uma das provas da participação do ex-prefeito nas mortes.

Conforme o delegado, outra prova de participação de Antério no crime seriam ligações telefônicas do ex-prefeito para o escritório da Delegacia Regional do Trabalho em Paracatu, cidade próxima a Unaí, pedindo informações sobre os fiscais e o motorista mortos.

Os telefonemas ocorreram em horário próximo ao dos assassinatos, que aconteceram por volta das 9 horas. "Os dois elementos (telefonemas e o veículo) são importantíssimos na investigação", afirmou o delegado, durante o depoimento.

Confirmações. As declarações do delegado se confirmaram em outros dois depoimentos prestados nesta quarta-feira, 4. O pistoleiro Erinaldo de Vasconcelos Silva, um dos condenados pelos assassinatos, confirmou que, na noite anterior à chacina, encontrou-se com José Alberto de Castro em um posto de gasolina onde viu um veículo Fiat Marea estacionado. O pistoleiro, no entanto, não soube dizer quem estava dentro do carro. Silva afirma ter sido contratado para os homicídios a mando de "fazendeiros".

A servidora da Delegacia Regional do Trabalho de Paracatu Rita Cristina Carneiro disse ter atendido duas ligações de Antério Mânica. Na primeira, o fazendeiro teria perguntado se todos teriam morrido. Na segunda, afirmou que os quatro estavam mortos. A presença do automóvel na região e as supostas ligações são os principais pontos do Ministério Público Federal para a sustentação de que Antério também é um dos mandantes dos assassinatos.

A chacina de Unaí aconteceu em 28 de janeiro de 2004. Na ocasião, foram mortos os fiscais Nelson José da Silva, Eratóstenes de Almeida Gonçalves, João Batista Soares Lage e o motorista Ailton Pereira de Oliveira. Os quatro foram assassinados dentro de um veículo oficial do Ministério do Trabalho em uma estrada vicinal da zona rural de Unaí enquanto fiscalizavam propriedades rurais suspeitas de irregularidades trabalhistas, entre as quais fazendas da família Mânica.

O advogado de Antério Mânica, Marcelo Leonardo, afirma não acreditar na condenação de seu cliente. "Não conseguiram produzir provas nos últimos 11 anos de investigação. A questão do Marea (o veículo visto próximo ao posto onde ocorria a reunião entre o grupo que tramava a morte dos servidores) será esclarecida e vocês terão a oportunidade de ficar sabendo", afirmou o advogado se dirigindo à repórteres. 

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