Rafael França/Divulgação
Rafael França/Divulgação

Kananga do Japão

Com sete personagens japoneses e a promessa de muitas histórias, novela das 7 põe atores orientais numa posição inédita na TV brasileira, muito além do caricato ‘pasteleiro’

Patrícia Villalba/ RIO - O Estado de S.Paulo,

16 de abril de 2011 | 16h00

Criado em Marília, reduto nipônico no interior de São Paulo, Walcyr Carrasco é admirador da cultura japonesa desde criança. E quando os robôs de Morde & Assopra levaram a novela para o Japão, o autor achou que seria a oportunidade de retratar o japonês além dos tipos caricatos que costumam frequentar a nossa teledramaturgia.

 

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É por isso que a novela das 7 traz um elenco nipônico como nunca se viu - são sete personagens, com promessa de muita história. "Convivi desde menino com amigos japoneses e nisseis. Quando era criança já ia em exposição de ikebana!", relembra Walcyr. "Quis expressar o fascínio que me acompanha desde criança."

Pode até ser que a iniciativa demonstre ser um caso isolado mais adiante, mas o amplo espaço que de repente se abriu animou os atores orientais. Chao Chen que o diga. Filho de chineses, o ator é o nissei Akira, assistente no laboratório do protagonista Ícaro (Mateus Solano). "A direção da novela já está sabendo que você é um japonês de araque?", brinca Mateus Solano com o colega, ao ouvir parte da conversa que ele teve com o Estado, no Projac. "Em Filhos do Carnaval, fiz um coreano", conta Chao, ainda comemorando sua primeira novela (leia entrevista com o ator à direita).

Cotidiano. Com 25 anos de uma carreira desenvolvida especialmente no teatro, Miwa Yanagisawa não poderia imaginar que voltaria à TV tão rápido. Ela mal acabara o trabalho em Viver a Vida, no ano passado, quando apareceu o convite para ser a rígida Tieko de Morde & Assopra. "Acho que é um movimento natural que, com o tempo, aspectos como a formação do povo brasileiro estejam se inserindo no contexto das novelas", observa a atriz. "O diferencial aqui é que antes os japoneses ficavam isolados nas tramas, e os papéis eram mais específicos. Mas tanto em Viver a Vida quanto em Morde & Assopra, a gente entra no dia-a-dia da novela. Como é na vida, né?"

 

Miwa lembra que na novela de Manoel Carlos, a médica Ellen (Daniele Suzuki) - filha de sua personagem, Tomie - poderia ser interpretada com uma atriz de qualquer biotipo - não era, exatamente, uma personagem japonesa. Já a Tieko de agora tem forte ligação com a cultura japonesa. Partiu dela a ação que está desencadeando os principais acontecimentos do núcleo nipônico.

Mãe das mais protetoras, ela quis fazer um "miai" para o filho, o doce e desajeitado Akira (Chao Chen). Seguindo a prática ancestral para arranjar casamentos, ela entrou em contato com Keiko (Luana Tanaka), uma decasségui que trabalha numa plantação de arroz no Japão. "A Keiko tem uma filha aqui no Brasil (Kimmy, papel de Carol Murai) e aceitou o acordo para conseguir a passagem de volta", detalha Luana. "Mas chegou aqui e não gostou nada do Akira."

Nesse ponto da história, Walcyr uniu passado e presente, ao aproximar uma tradição japonesa das dificuldades por que passam os decasséguis no Japão. Quando vê a chance de voltar para o Brasil, Keiko trata de resgatar a prima Hoshi, papel de Camila Chiba, que, desempregada, tenta sobreviver nas ruas de Tóquio.

É uma história que Camila conhece bem: os avós dela, japoneses, casaram-se graças a um miai; e ela mesma foi, em 2007, operária de uma fábrica de celulares em Tóquio. "Foi um ano antes da crise econômica. De repente, a produção da fábrica despencou, e eu precisava trabalhar para pagar a passagem de volta. Foi muito difícil", conta ela, que deu um grande susto nos pais quando anunciou que batalharia pela carreira de atriz - ainda pouco comum entre orientais.

"Mas o mercado está se abrindo, e acho que a novela vai contribuir para isso", aposta. "Minha família ficou feliz quando passei no teste para a novela, mas todo mundo falou ‘você não vai falar daquele jeito né?’, diz, referindo-se ao modo caricato de falar dos "pasteleiros de novela". "A gente tem um pouco desse anseio, de que a cultura japonesa seja mostrada de uma maneira legal."

Estereótipo. Atriz formada que vinha trabalhando há dois anos como produtora de teatro, Camila não nega que tenha posto seu biotipo na balança na hora de decidir pela carreira de atriz. "Nunca fui rejeitada num teste por ser oriental, mas é porque eu só ia a testes para papeis mais genéricos", diz.

Tão italiana quanto japonesa, Luana intervém: "Já aconteceu de eu fazer um teste para protagonista e acabar pegando um papel secundário, porque acharam que eu tinha ‘algo de oriental’. Parece que japonês só pode ser protagonista em comercial de eletrônicos...", protesta ela, com bom humor.

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