Lacunas da carne

 Foi a fome que levou Numo Rama à fotografia. Fome de vida, de encontros, de respostas. Uma fome muito grande de se achar. A fotografia, na verdade, estava só na esquina, já que a viagem era muito maior e o destino, incerto. Natural de Araruna (PB), aos 17 anos, resolveu que deveria sair - de tudo, todos, de si mesmo. Passou 16 perambulando pelo mundo e trabalhando em bares, fábricas, como motorista, artista de rua. O choque com a fotografia rendeu algumas explicações que ele procurava. Mas, claro, abriu um desfiladeiro de perguntas sobre a condição humana, em especial a do nordestino retirante, e o tempo. A coleção apresentada nestas páginas reúne fotografias de três de seus trabalhos: Quimera, Diáspora, Humanos e Carnívoros. Hoje, aos 45 anos, Rama vive com a mulher e dois filhos num rancho em Pedra da Boca (RN). Ali ele toca a Pousada Fulô da Pedra e o Espaço Alumiar de Fotografia, destinado a residências artísticas para fotógrafos que queiram, como ele, se achar. Ou se perder.

Christian Carvalho Cruz, O Estado de S. Paulo

24 Maio 2014 | 16h00

HARMONIZAÇÃO. De olhos e ouvidos bem abertos para acompanhar as fotografias, ao som de Ainda Há Tempo (Criolo), Pra Não Ter Tempo Ruim (Emicida) e Negro Drama (Racionais MC’s).

Como a fotografia entrou na sua vida?
Em 1986 dei início a uma longa retirada de 16 anos, sem retorno e sem notícias. Uma temporada no Norte do Brasil, na Europa, Ásia e península árabe. Em 1994, em Lisboa, comprei minha primeira câmera e comecei a esmiuçar o que poderia fazer sentido usando a linguagem fotográfica. Foi um encontro nada amigável. Muitas frustrações. Eu não entendia essa linguagem. Em 2004 decidi mostrar pela primeira vez meu trabalho. As influências são múltiplas. Desde meu avô José, tosco e analfabeto, que admiro tanto, a fotógrafos como Cartier-Bresson, Alvarez Bravo e a filosofia apurada de Joseph Koudelka. Dos embates das realidades desse chão que voltei a pisar em 2000 venho extraindo a energia necessária para fazer uma fotografia com o volume e a força pertinentes à vida de meus ancestrais e das pessoas que encontro por aqui.

Por que viver, como você diz, ‘no mato’? 
A estética do sertão tem uma força muito própria. Tudo no presente por aqui teve muitos passados, e com uma câmera simples, analógica, e muita pretensão tento juntar tudo numa única imagem. Sei que ainda estou longe do êxito, mas sou teimoso e vou quebrando as veredas do imaginário de forma que você também possa entrar. Toda a minha família está relacionada com ao campo. Quando voltei ao Brasil fui retornando para a terra sem perceber. É uma busca pelo tempo. Vivi em muitos lugares, principalmente em grandes cidades, onde não há espaço nem tempo, onde formataram o tempo, onde o tempo está em extinção. Todo meu trabalho é pensado com o tempo, somos bons amigos. Trabalho uma linha de fotografia de caráter atemporal, na tentativa de que as pessoas formulem sua própria opinião sobre a minha (relativa) verdade. Nisso, a medida antiquada do tempo é minha aliada. 

Com que frequência você fotografa?
A vida de peão não me permite ser um fotógrafo contínuo. Então, penso a fotografia enquanto conserto as cercas, ou preparo o arreio para domar cavalo. É de onde tiro tempo para longas reflexões e programo mentalmente tudo. Há tempo, muito tempo, menos para fotografar todos os dias ou todo mês. Então, uma ou duas vezes por ano parto ao encontro do assunto previamente estudado. Tudo já está “pronto”, exceto a geometria que irá ilustrar meu manifesto. Preciso de símbolos primários, quase rupestres, para da forma a isso. Acho mais importante definir a tonalidade psicológica do ensaio. Isso envolve certo discernimento e um desgaste mental absurdo. Há muitas camadas semânticas que precisam ser consideradas. O vulto denso da subjetividade predomina não como espaço para a verdade do óbvio. Não há verdade no óbvio. O óbvio oprime a sensibilidade. 

Do que falam as imagens mostradas aqui?
Preciso discutir o que penso e vejo no homem que anda na mesma terra que eu ando, o que ele traz do discurso de toda a humanidade. Eu vejo o mundo a partir desse Nordeste que pare retirantes e retornados. Vejo o egoísmo desmedido no ensaio Humanos; sonhos, quedas, desalento, a imposição do homem sobre o homem em Quimera; indiferença em Carnívoros. Em todos eles, desnudo minha origem, falo de minhas quedas e desse Nordeste cru de onde minha gente foi saída e que precisa ser retratado com dignidade. Gosto de seu lado primário e ao mesmo tempo universal. Tenho necessidade de falar de uma força que se debate por essas brenhas, pois nela também encontro o outro. E na minha busca vou ao limite sem culpar ninguém. Tento apenas erguer o tímido brilho da luz inerente a nós mesmos. Eu fotografo, pois, um discurso. Mas, cuidado, porque o apego simples à imagem pode confundir a compreensão desse discurso.

Mais conteúdo sobre:
pedra da bocanordeste

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.