Lagosta à la sumiço

A primeira Guerra da Lagosta, nos 1960, foi evitada. Mas o conflito entre a pesca artesanal e a predatória que se alastra voltou a esquentar nos últimos anos. Quem paga o (caríssimo) prato é o pobre crustáceo, que está acabando

JOSÉ ORENSTEIN, O Estado de S.Paulo

01 Novembro 2012 | 02h09

Mar azul, céu ainda mais azul. Na última sexta-feira, na Praia da Redonda, litoral leste do Ceará, cinco jangadas a vela apontavam no horizonte. Passava do meio-dia, o sol deixava a areia em brasa e ficar ali, na beira da água, só se justificava pela esperança de que viessem carregadas de lagostas. Uma a uma, as jangadas, que tinham saído para o mar de madrugada, foram ancorando e recolhendo as velas.

Da primeira, dois pescadores lançaram-se ao mar com pequenos baldes. Vieram nadando devagar. As ondas deram o empurrão final rumo à terra firme e eles saíram cambaleantes, short, camiseta e boné ensopados grudados na pele. Os baldes vazios. "Não tem nada. Estamos fudidos", disse um deles. Apertaram o passo e sumiram na areia.

A cena se repetiu naquela tarde, quando apenas duas lagostas foram capturadas após um dia inteiro no mar. Quem as exibiu, meio envergonhado, meio orgulhoso, foi Leudo Ferreira, de 36 anos. Mas ele é exceção entre os 800 pescadores da Redonda: os baldes vazios têm sido rotina. "É o pior ano para pesca da lagosta que já vi", diz Geraldo Bidéi, o decano da praia, de 65 anos - 58 de pesca. Os colegas concordam. Há 20 anos, na Redonda, cada pescador trazia, em média, 50 kg a 60 kg de lagosta por dia. Hoje não se pesca isso num ano.

A Praia da Redonda pertence ao município de Icapuí e assim como Barreiras, Tremembé, Barrinhas e Quitéria, as outras praias da região, tem a pesca como principal fonte de renda. A diferença é que só na Redonda a pesca de lagosta é artesanal: barcos a vela, armadilha feita de madeira e rede de náilon, o manzuá.

Nas outras praias, a pesca é feita com barcos motorizados e marambaias - tambores de ferro usados como armadilha. Os pescadores achatam os tambores aos milhares e os atiram no mar, marcando a localização com GPS. As lagostas entram n essas armadilhas e, sem espaço para se virar e sair, acabam capturadas por mergulhadores, que descem a até 30 metros de profundidade com ajuda de um precário sistema de compressão de ar em botijão de gás. Para criar coragem, muitos usam crack. Ou descem em apneia, com risco de embolia pulmonar. Acidentes fatais são frequentes e o método, arriscado, é proibido.

Chamados de piratas pelos pescadores da Redonda, os pescadores de compressor são acusados de ter acabado com a lagosta da região. A disputa entre eles já deixou três mortos (leia abaixo), numa briga que se arrasta há mais de 20 anos e expõe a insustentabilidade da produção de lagostas no Brasil.

A pesca com o manzuá, como é feita na Redonda, é a única permitida por lei. Os pescadores saem por volta das cinco da manhã e lançam a armadilha a até 30 quilômetros da costa. No meio do manzuá, uma cabeça de bagre serve de isca. Deixam lá por um dia e voltam para recolher as lagostas que caíram na armadilha. Mas como saber onde foram deixados os manzuás? O pescador Cosme da Silva dá uma risada: "A gente olha as moitas na terra, tira uma base e vai lá para dentro", diz apontando o mar. A trama da rede da armadilha é larga o suficiente para deixar passar as lagostas pequenas, que não podem ser pescadas.

A pesca como é praticada nas praias vizinhas é ilegal. No entanto, é a que mais cresce e ameaça a lagosta no Ceará, o Estado que mais produz o crustáceo, e também no Rio Grande do Norte e Pernambuco, os outros grandes produtores - onde nem há mais pesca de manzuá. Por ali, lagosta só com rede, marambaia e mergulhador.

E o problema se agrava: desde 2008, quando o Ibama parou de fazer relatórios, não há dados precisos da produção pesqueira no Brasil - a função caberia ao Ministério da Pesca, escanteado na política federal. Os dados mais confiável são os de exportação. O quadro é preocupante: no ano passado saíram 2.261 toneladas do Ceará até o fim de novembro. Neste ano, foram apenas 1.113 toneladas até agora.

Ontem, os pescadores da Redonda fizeram um protesto em Fortaleza. Reivindicam fiscalização. E a situação está tão ruim que eles já decidiram parar de pescar um mês antes do defeso - que vai de dezembro a maio. A maioria não respeita a proibição.

"No último defeso se comprava lagosta fresca todo dia no mercado de Mucuripe", diz Paulo Lira, engenheiro de pesca e pesquisador da Universidade Federal do Ceará. "É um problema seriíssimo de sobrepesca."

A continuar nessa toada, a renovação desse cobiçado fruto do mar no Brasil fica comprometida. E a lagosta, cada vez mais rara, cara e menor.

Em janeiro de 1962, o pesqueiro francês Cassiopée capturava lagostas na costa do Nordeste quando foi apresado pela corveta Ipiranga. Deflagrou-se uma disputa diplomática incensada pela opinião pública. Os brasileiros reclamavam que os gauleses pescavam com rede, enquanto eles só usavam o covo - variação do manzuá, até hoje usado na Praia da Redonda, no Ceará. Os líderes dos dois países, Jango Goulart e Charles de Gaulle, tiveram de se acertar para evitar um confronto militar. Os franceses acabaram batendo em retirada e encerrou-se a Guerra da Lagosta -sem mortos ou feridos.

Meio século depois, a história se repete, invertendo a máxima: primeiro foi farsa, agora é tragédia. No pequeno município de Icapuí, no Ceará, dois moradores da Praia da Redonda e um da Barrinha morreram na disputa pelo crustáceo. O confronto teve início em 1989, quando barcos motorizados começaram a ameaçar a pesca de barco a vela da Praia da Redonda. "A gente passa 6 meses preservando e eles passam 12 pescando", diz o pescador da Redonda Eduardo Batista, de 47 anos, que reclama da falta de fiscalização no período do defeso, quando a pesca da lagosta é proibida.

Há dois anos, ele e os companheiros caçaram em alto mar 11 barcos motorizados que pescavam com ajuda de compressores. Jogaram todos na terra e até queimaram um deles. A Polícia Federal interveio e interditou a embarcação dos redondeiros.

A violência amainou este ano, Um muro pintado na rua da Praia na Redonda pede paz. Só que a inédita escassez de lagosta aumentou a rivalidade latente.

Após o dia na água, os pescadores da Redonda reúnem-se no coreto a beira-mar (que chamam de Boca do Povo) para jogar baralho e assuntar. Ali eles tramaram retirar os seus manzuás do mar antes do defeso, para evitar mais prejuízo de voltar de mãos vazias - gastam com isca e refeição a cada saída.

Eles planejam ficar 18 meses sem pescar lagosta. Mas insistem que não adianta pararem de tirá-la do mar se não houver quem impeça a pesca predatória nas praias vizinhas.

Cabe ao Ibama policiar a pesca ilegal, porém o trabalho da agência esbarra nos poucos recursos. A superintendência do Ceará tem apenas um barco para cuidar de 573 quilômetros de costa - com mais de cem pontos de desembarque e 1.943 barcos autorizados a pescar lagosta. A embarcação sai uma vez por mês e passa 15 dias no mar com fiscais e policiais ambientais armados com balas de borracha. Em setembro, a tripulação de um barco flagrado pescando com rede se encapuzou, cobriu o nome com graxa e foi para cima do Ibama. "Não afundaram a gente por milagre", conta Rolfran Ribeiro, coordenador da fiscalização. "Trabalho há 30 anos nisso. Não damos conta."

Na Redonda, e também nas praias vizinhas, a lagosta é a ocupação natural dos homens. No mar e na areia - em barracas de praia, montadas para receber turistas da vizinha famosa Canoa Quebrada, que sobem nos bugs e disparam pelas areias e famintos. Na barraca do Carlinhos, a suculenta lagosta, frita no alho e óleo, sai por R$ 40. Mas nem todos podem investir no comércio. "Criei meus filhos no mar, mas eles estão com medo de criar os deles também", diz Francisco Pereira da Silva, de 53 anos. O Bolsa Família ajuda, mas não é suficiente, diz Francisco, que recebe R$ 70 por mês, mas diz gastar R$ 90 só com eletricidade na casa onde mora com cinco filhos. "A gente vive do mar. Do jeito que está não vai dar. Já tem gente passando fome."

Grelhada, à thermidor, cozida no vapor. Aquela carne branca de sabor suave da lagosta que chega a sua mesa, geralmente com a carapaça, é, muito provavelmente, de origem ilegal. Do mar ao mercado, e do mercado à mesa, o controle de legalidade se dissolve como sal na água.

A procedência das lagostas vendidas em São Paulo, assim como em muitas outras cidades no Brasil e no exterior, é incerta. Não por culpa de quem compra, mas quase sempre de quem vende os crustáceos. O que acontece é que qualquer barco pesqueiro - de qualquer tipo - que possuir uma licença do Ministério da Pesca está tecnicamente autorizado a vender lagosta. Os pescadores, em sua maioria autônomos, passam a atravessadores, que costuram a costa reunindo unidades do crustáceo para serem limpas e embaladas e depois distribuídas - tanto no mercado interno quanto no externo.

É um sistema de comércio que transfere a responsabilidade de fiscalização do pescador para a indústria, diz André Rocha, gerente de produção da Monteiro Pescados, beneficiadora de produtos do mar em Itarema, Ceará.

Ou seja, para o consumidor, é praticamente impossível saber se o crustáceo à venda foi capturado de forma legal ou não.

Comerciantes de peixes do Mercado Municipal de São Paulo e chefs de alguns restaurantes da cidade consultados pelo Paladar precisam confiar nas informações dos fornecedores sobre a procedência do crustáceo, que em geral vem de Ceará, Rio Grande do Norte, Espírito Santo e Bahia. Mas não têm como saber se a lagosta foi pescada da forma correta. Tudo o que podem fazer é conferir a certificação do vendedor. Nada além disso.

Na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), das três toneladas que passaram pelas peixarias em 2011, a maior parte veio do Espírito Santo (Marataízes, Vila Velha e Piuma). A situação é a mesma: sabe-se a origem, mas não há nenhuma informação sobre as circunstâncias da pesca.

Ouro do mar. A lagosta é emblema de sofisticação. Mas já foi rejeitada, chamada de aranha do mar, usada como isca e, nos Estados Unidos, antes de ficar chique, era tão abundante que houve tempo em que fazia parte do cardápio dos presídios - porém devia ser servida uma vez por semana apenas, para que os detentos não se rebelassem, como contou Davis Foster Wallace num artigo para a revista Gourmet, que ficou famoso e recentemente foi publicado na revista piauí. No Brasil, até os anos 1950, a lagosta era desprezada. E seu status mudou depois da guerra, por causa de um oficial da Marinha americano, Davis Morgan, que percebeu sua abundância na costa tropical.

O Brasil tem lagosta do Amapá até o Espírito Santo. E o Ceará é o lugar ideal: águas quentes, claras e calcárias (ricas em carbonato de cálcio, que favorece as duas trocas anuais de carapaça que a lagosta adulta faz).

Morgan comprava aqui a preço de banana e revendia lá pelo preço de comida de luxo. Os brasileiros perceberam, a lagosta thermidor apareceu nos cardápios do Rio de Janeiro e o negócio cresceu, puxado pela exportação. Até hoje, cerca de 90% da lagosta brasileira vai para o exterior. A Panulirus argus, a lagosta vermelha, maior, tem mais saída, mas vende-se também a Panulirus laevicauda, a lagosta verde. Com a crise econômica, a demanda diminuiu nos países ricos, o preço caiu e cresceu espaço para o mercado interno.

Na Praia da Redonda, entre 2002 e 2004, o quilo de lagosta inteira saía por R$ 35 com os pescadores. Hoje, sai por R$ 15. Mas, se o preço caiu na fonte, na cadeia até chegar ao prato ele cresceu exponencialmente. No Mercadão de São Paulo o quilo custa R$ 50, em média. Nos restaurantes, uma lagosta chega a R$ 180.

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