ACERVO / A. Shibayama Family Collection
ACERVO / A. Shibayama Family Collection

Latinos de ascendência alemã foram detidos e enviados aos EUA na 2ª Guerra

Famílias perderam documentos, bens e foram enviadas a campos de trabalho no Texas

Cláudia Trevisan, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S. Paulo

19 Março 2017 | 05h00

WASHINGTON - No dia 28 de junho de 1942, o jornal Tribuna estampou os nomes dos pais de Heidi Gurcke Donald em um lista de inimigos de guerra, com os quais os costa-riquenhos não deveriam fazer negócios. Werner Gurcke havia imigrado de Hamburgo para o país latino-americano 13 anos antes. Em 1936, ele se casou com a americana Starr Pait, que havia conhecido em um navio no ano anterior, durante uma visita à Alemanha.

Quando a lista foi divulgada, o casal tinha duas filhas nascidas na Costa Rica: Heidi, de 2 anos, e Ingrid, de 1 ano. Gurcke foi preso um mês depois da publicação. Em janeiro de 1943, ele, a mulher e as duas filhas foram colocados sob a mira de fuzis em um navio com destino aos Estados Unidos, onde ficariam detidos no campo Crystal City, no Estado do Texas, o mesmo em que a família do peruano Art Shibayama foi mantida.

Cerca de 4,5 mil alemães e seus descendentes foram presos em países da América Latina e enviados para os Estados Unidos durante a 2.ª Guerra. Muitos perderam tudo ou quase tudo que possuíam. Depois do fim do conflito, eles tiveram de começar uma nova vida no país para o qual haviam sido levados contra a vontade, já que não eram aceitos de volta nos que viviam anteriormente.

Sete décadas depois da guerra, nenhuma das famílias de origem alemã ou italiana confinadas em campos nos Estados Unidos recebeu um pedido de desculpas ou indenização do governo federal. “Não houve nem o reconhecimento de que os europeus estiveram detidos aqui”, disse Heidi, autora do livro We Were Not The Enemy (Nós Não Éramos o Inimigo), no qual relata a história de sua família.

Como os demais latino-americanos levados aos Estados Unidos como inimigos de guerra, a família Gurcke teve seus documentos confiscados, o que levou à acusação de que haviam entrado no território americano de maneira ilegal. Em tese, isso justificaria sua detenção nos campos criados durante a 2.ª Guerra.

Danos. “Décadas mais tarde eu gravei entrevistas com minha mãe sobre o que ocorreu. Até então, eu não sabia que a experiência a havia afetado tão profundamente. Muitas vezes, ela não conseguia continuar o relato sem chorar”, disse Gurcke, que é vice-presidente da German-American Internee Coalition, um grupo criado em 2005 com o objetivo de educar o público americano sobre a experiência de milhares de pessoas inocentes detidas durante a 2.ª Guerra.

Desde sua criação, a organização também tenta obter do governo federal o reconhecimento de violação dos direitos civis de alemães dos EUA e da América Latina naquele período. No total, 11 mil deles foram mantidos em campos de detenção nos EUA.

A família Gurcke conseguiu sair de Crystal City em 1944, quando Werner obteve liberdade condicional. Seu desejo era voltar à Costa Rica, mas ele foi impedido de deixar os Estados Unidos. “Eu gostaria que o governo americano analisasse o que aconteceu e avaliasse o programa, para evitar que outros grupos de pessoas sejam submetidos à mesma experiência”, disse Heidi. 

 

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