Laudo aponta tóxicos cancerígenos e obriga remoção de 750 no RJ

Análise em terreno doado pela CSN a trabalhadores comprova contaminação em 'níveis intoleráveis'; empresa não confirma

RIO, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2013 | 02h07

Um terreno cedido pela Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) na década de 1990 para a construção de casas para funcionários, em Volta Redonda, está contaminado com substâncias tóxicas potencialmente cancerígenas que expõem a população local a "níveis intoleráveis de risco à saúde", aponta laudo divulgado ontem pelo secretário estadual do Ambiente, Carlos Minc.

Segundo ele, pelo menos 750 dos 2.257 moradores do condomínio Volta Grande IV precisam deixar o local "imediatamente" - ainda não foram realizados estudos clínicos para avaliar os danos à saúde. A decisão sobre a remoção caberá à Justiça de Volta Redonda. Em julho, o Ministério Público do Rio já havia ajuizado ação solicitando a retirada dos moradores e, na semana passada, solicitou oficialmente ao Instituto Estadual do Ambiente (Inea) a apresentação do laudo.

A CSN, que poderá ser multada em até R$ 50 milhões, declarou não ter conhecimento do laudo e garante que nada foi apontado em "mais de cinco amplos estudos nos últimos 13 anos" realizados no local. Minc afirma que o novo estudo foi feito pela empresa Nickol, com apoio do Inea, sob encomenda da própria CSN e por determinação do governo. No entanto, não abrange todo o terreno, apenas um trecho de 10 mil metros quadrados. A área onde vivem os outros 1.507 moradores ainda não foi vistoriada - a culpa pela demora, segundo o secretário, e da própria CSN.

Segundo o secretário, que não soube dizer quando ocorreu a contaminação, as substâncias cancerígenas afetam o solo e águas subterrâneas, a 200 metros do Rio Paraíba do Sul. Existe ao lado do condomínio um depósito oficial de rejeitos da CSN. Há concentração de tóxicos como ascarel, benzopireno, cádmio e cromo no bairro até 90 vezes acima do máximo tolerável.

"Tomei conhecimento dos dados na segunda. São apavorantes", diz o secretário. O Rio ainda não cumpriu a exigência do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) de cadastrar as áreas potencialmente contaminadas. Minc, porém, diz que neste caso a responsabilidade é da CSN. "Quem tem obrigação de fazer a análise é o poluidor."

Ceticismo. No condomínio, placas proíbem os moradores de fazer perfurações, cultivar plantas ou usar água de poço. Em 13% das casas, porém, são cultivadas árvores frutíferas ou hortaliças. Muitos moradores parecem não acreditar nos riscos de contaminação. "Isso já vem de muito tempo, mas ninguém provou nada. É conversa de quem está devendo dinheiro na casa e está doido pra ser indenizado", diz o motorista Luis Carlos Carvalho Lopes, que há 14 anos vive no local com a esposa e o filho de 4 anos. / FELIPE WERNECK E HELOISA ARUTH STURM

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