Legista do Paraná é detida com órgãos humanos no carro

Ela tentava levar corações e vísceras do IML de Curitiba para UFPR, mas não tinha autorização para isso

Evandro Fadel, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2008 | 18h19

A médica-legista do Instituto Médico Legal (IML) de Curitiba e professora do curso de Medicina da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Lubomira Verônica Oliva, de 62 anos, foi presa no fim da tarde de quinta-feira, 18, sob acusação de tentativa de remoção não autorizada de órgãos de cadáveres humanos. De acordo com a polícia, no porta-malas de seu carro foram encontrados dois corações, parte de um terceiro e vísceras humanas acondicionados em potes utilizados para sorvete. Segundo o delegado da Divisão Estadual de Narcóticos (Denarc), Cassiano Aufiero, que estava de plantão e fez o flagrante, ela alegou, no depoimento, que estava amparada por um suposto convênio entre o IML e a UFPR, pelo qual órgãos poderiam ser levados para fins pedagógicos. "Ela disse que era corriqueiro", afirmou Aufiero. "Mas foi um depoimento um pouco confuso, com muitas contradições, porque depois disse que só havia fragmentos, que ela chamou de lixo orgânico."  O interventor do IML de Curitiba, coronel Almir Porcides Júnior, ressaltou, no entanto, que o convênio a que a médica se referia foi assinado em 22 de setembro de 1999 pela UFPR e Secretaria de Segurança Pública, com prazo de validade de cinco anos, vencido em 2004. "Mas, mesmo que ainda vigorasse, tem várias exigências que não foram seguidas", acentuou. Segundo ele, o convênio não permite trânsito do órgão, mas apenas a possibilidade de estudantes da UFPR irem ao IML para estudos. O interventor disse ainda que, mesmo assim, dependeria de autorização da família, da Justiça e do próprio instituto.  Porcides Jr. disse que as investigações começaram na semana passada, após ele ter recebido denúncias anônimas de funcionários sobre essa prática. As atividades dela passaram, então, a ser monitoradas por meio de filmagens das câmeras do circuito interno. Ela acabou surpreendida pelos policiais no fim da tarde de quinta-feira, quando deixava o trabalho. Policiais pediram para abrir o porta-malas do carro, onde teriam sido encontrados os órgãos. O delegado disse que deve encerrar o inquérito em 10 dias e que mandará as informações também ao Conselho Regional de Medicina (CRM). Nesta sexta-feira, 18, o CRM preferiu não se manifestar, alegando que ainda não tem informações suficientes para isso. Aufiero afirmou que, eventualmente, poderá pedir a exumação dos cadáveres que supostamente teriam sido sepultados sem os órgãos. O interventor do IML destacou que já foram identificados de quais corpos teriam sido retirados e que ele iria informar os familiares. "Mas acho que, depois disso, talvez as famílias venham reclamar", disse. A assessoria de imprensa da UFPR afirmou que a instituição somente vai se pronunciar depois que a procuradoria tiver todas as informações sobre o caso. As únicas informações repassadas são de que a professora Lubomira está há mais de 30 anos na UFPR e sempre foi considerada "excelente". No IML ela trabalha há 35 anos. A advogada da médica, Adriana de Alcântara Luchtenberg, não retornou as ligações telefônicas.  O coronel Porcides Jr. foi colocado como interventor no IML no início do ano. "Fomos para acertar a parte administrativa e culminou com esse caso constrangedor", disse. "Mas o caos não é de agora, vem de mais de 20 anos." Desde que houve a intervenção, quatro funcionários do órgão foram presos. Na primeira ação, dois motoristas acabaram presos sob acusação de cobrança indevida para liberação de corpos; depois, um papiloscopista foi acusado de vender o corpo de um indigente para que uma pessoa forjasse a própria morte, a fim de receber o seguro.

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