Leia trecho de 'A Felicidade É Fácil', de Edney Silvestre

A felicidade é fácil. Basta uma folha de papel e uma caixa de lápis de cor, pensou, quase no mesmo instante em que a primeira bala o atingiu.

28 Outubro 2011 | 21h42

O olho e a mente treinados registraram, imediatamente: um homem encapuzado, grande, vestindo uma japona escura, apontando para ele e disparando com a mão esquerda um revólver Magnum de cano longo, saindo da caminhonete preta que acabara de barrar a passagem do Mercedes-Benz, dois carros menores a bloquear qualquer possibilidade de fuga por trás, um sedã preto atrás destes, outros encapuzados saindo dos automóveis menores, todos a correr em sua direção, um, dois, três, quatro, cinco homens, com armas nas mãos, revólveres e pistolas, nenhum deles empunhando nada maior, o que pretendem, o que querem, ele se perguntou, o ombro direito ardendo da bala que o atravessara, apoiando-se na perna esquerda, erguendo o tronco e virando o corpo para o banco onde o menino parou de desenhar e olha para ele com curiosidade e incompreensão, enquanto grita para a criança, sem lembrar-se que ela nada ouve, enquanto grita que se abaixe, que se deite no piso do carro, ao mesmo tempo que vê os homens encapuzados se aproximando em sua direção, só um dos encapuzados atira, o que tem a Magnum prateada de cano longo na mão esquerda, o sujeito grandão que saiu da caminhonete preta, deve ser ele, tem que ser ele, mas o menino não se mexe e Major não o alcança, sentindo o impacto de outra bala, desta vez no ombro esquerdo, deve ser um atirador de elite que não pretende matá-lo, se não teria atirado em sua cabeça, tem pontaria e visão para isso, raciocina, empurrando o corpo mas só conseguindo pegar a mochila verde e preta enfeitada com bichinhos de desenhos animados, ao mesmo tempo que dois encapuzados abrem as portas traseiras do Mercedes-Benz e ele recua no banco da frente, quer pegar a pistola Glock semiautomática que mantém presa na parte de trás do cinto, amaldiçoando-se por não ter feito isso logo, em vez de tentar primeiro salvar o menino, mas o encapuzado de japona escura já está a seu lado, disparando três vezes seguidas a Magnum 3.57 em seu pescoço e nuca.

O menino é puxado pelos encapuzados dos carros menores, tem a cabeça coberta por um saco, é passado ao motorista da caminhonete escura, que o carrega até ela e o empurra para dentro do porta-malas.

O grandalhão da Magnum 3.57 de cano longo joga sobre o corpo inerte do Major uma folha de papel rijo, onde estão escritos dois longos números. Uma seta, riscada com caneta hidrográfica, aponta da primeira fileira de algarismos para a segunda. Com a mesma caneta, do outro lado, está anotada a frase Temos seu filho.

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