Leia trecho de 'Escrevendo no Escuro', de Patrícia Melo

Escrevendo no Escuro, conto que dá título ao novo livro de Patrícia Melo (editora Rocco)

28 Outubro 2011 | 21h38

Chamava-se O Sonâmbulo e era minha obra-prima. O estilo era carregado, como uma estrutura gótica, repleto de labaredas, nervuras e criaturas confusas perdidas entre espelhos. Já de largada, sentia-se uma promessa de grandiosidade, de explosão violenta e, também uma necessidade patológica de contenção. E a qualidade literária era inquestionável, eu sabia. Além disso, do ponto de vista científico, o fenômeno poderia abrir frentes inovadoras de pesquisa.

Aconteceu assim: certa manhã, logo após iniciar um tratamento à base de barbitúricos indicados por meu psiquiatra, acordei ao lado de meu bloco de notas repleto de novas sugestões e apontamentos para meu romance emperrado. Não me lembrava de ter escrito nada daquilo, mas o material me agradou. Nos dias seguintes, depois da ingestão do tal remédio, fatos igualmente estranhos ocorreram: telefonei para a minha editora no jornal e elogiei suas pernas; briguei com um catador de lixo no meu bairro por causa de seu cachorro que defecava na praça; encomendei uma pizza pelo diskcook e convidei o porteiro da madrugada para dividi-la comigo em meu apartamento. Estes fatos me foram relatados depois, sem que eu me recordasse de nada. Conversei com meu médico, e foi então que tomei conhecimento da amnésia anterógrada, fenômeno em que há perda de memória de eventos ocorridos logo após a ingestão da substância maleato de midazolam. O psiquiatra sugeriu que eu suspendesse o medicamento. Em vez disso, pesquisei o assunto, me usando como cobaia.

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