Levantamento do Inca lista 19 tipos de câncer ligados à profissão do paciente

Dos 500 mil casos de câncer registrados todos os anos, pelo menos de 20 mil a 25 mil estão relacionados à ocupação do paciente. Um levantamento do Instituto Nacional do Câncer (Inca) lista 19 tipos de tumores malignos - entre os de pulmão, pele, fígado, laringe e leucemias - que podem ser provocados pela exposição a produtos químicos e falta de equipamentos de segurança adequados.

CLARISSA THOMÉ / RIO, O Estado de S.Paulo

01 Maio 2012 | 03h04

Os dados fazem parte do estudo Diretrizes para Vigilância do Câncer Relacionado ao Trabalho, divulgado ontem, véspera do Dia Internacional do Trabalho. A estimativa de 20 mil a 25 mil casos pode ser conservadora - leva em conta pesquisas europeias, que apontam que 4% dos novos tumores são ligados à ocupação. "Considerando o ambiente de trabalho, maquinários obsoletos, processos ultrapassados, os trabalhadores brasileiros estão ainda mais expostos que os europeus. Em alguns tipos de tumor, podemos trabalhar com uma proporção de 8% a 16% dos novos casos", ressalta Ubirani Otero, coordenadora do estudo e responsável pela Área de Vigilância do Câncer Relacionado ao Trabalho e ao Ambiente do Inca.

O documento recomenda como principal estratégia para a redução do número de tumores malignos a eliminação da exposição aos agentes causadores. Além de listar os cânceres relacionados ao trabalho, o estudo indica os produtos cancerígenos e a atividade econômica a que estão ligados, como a de cabeleireiros, agricultores, profissionais da construção civil, indústria do petróleo, entre outras.

Aponta também a dificuldade de se obter dados a respeito da ocupação dos pacientes. Ubirani levantou por exemplo estatísticas sobre câncer de bexiga com base no cadastro integrado dos Registros Hospitalares de Câncer, entre 2008 e 2010. Nesse período, hospitais relataram 2.426 casos da doença - em 46,2% não havia informações sobre o tipo de trabalho exercido.

"Não basta saber a ocupação atual, mas também a atividade pregressa. Só com informações corretas vamos conseguir relacionar câncer à ocupação", diz Ubirani. Segundo ela, o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, tem apenas 128 registros de câncer relacionado ao trabalho. O estudo propõe a adoção de um questionário ampliado sobre a ocupação e o tempo de serviço na atividade de risco.

O professor de Epidemiologia da Universidade de São Paulo Victor Wünsch defende que o governo defina metas para a redução dos riscos no trabalho: "Desses casos ligados à ocupação, estima-se que metade seja de pacientes com câncer de pulmão. É extremamente grave porque não temos tratamentos eficazes até o momento para esse câncer. Temos de fazer a prevenção".

O diretor do Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental do Ministério da Saúde, Guilherme Netto, considerou o documento "absolutamente estratégico", mas reconheceu que levará alguns anos até que as diretrizes possam ser implementadas no País.

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