Liberdade no tema e na direção

A Falta Que me Faz aborda de maneira aberta a passagem para a vida adulta

Luiz Zanin Oricchio, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

25 de novembro de 2009 | 00h00

O documentário A Falta Que me Faz, de Marília Rocha (mesma diretora de Aboio), deu um belo fecho à mostra competitiva de longas-metragens do Festival de Brasília. O filme, um exemplar da escola documental mineira, apresenta um retrato tocante, porém incisivo, do cotidiano de quatro moças de Curralinho, distrito de Diamantina.

É um trabalho de aproximação a personagens um tanto periféricos, sem grandes perspectivas de vida e que atravessam uma etapa difícil da vida - o final da adolescência e o começo da idade adulta. São pobres, namoram, vão ao baile funk, enfrentam as dificuldades do amor, dos relacionamentos estáveis ou passageiros, do futuro, das consequências de uma possível gravidez. É uma imersão paciente, de olhar (e escuta) feminino, que termina de modo quase, digamos assim romântico, com a paisagem de Minas e a canção Je Rêve de Toi, do francês Arthur H.

Sobre seu método de trabalho, Marília disse que nele "não existiam regras, do tipo: esse vai ser um filme de observação ou de intervenção". "Fomos nos deixando conduzir pelas personagens. Assim, íamos filmando e gravando, mas se eu sentia vontade de fazer uma pergunta, não me reprimia. Essa liberdade ditou o ritmo do filme", diz.

Sobre o suposto formalismo do novo documentário mineiro, Marília disse que "há filmes feitos em Minas com preocupação maior quanto ao aspecto formal, como é o meu próprio caso em Aboio. Neste, procurei uma escuta muito atenta, uma disponibilidade. Queria estar ali, estar com elas, e ser guiada por elas. Estava aberta a algum elemento novo, surpreendente."

É o que sucede quando estão filmando uma das garotas, Valdênia, e ela fica sabendo que o namorado, Derlei, estava chegando, quando ela o esperava apenas para a semana seguinte. Ela olha para a câmera, entre feliz e agitada, e esse momento é muito rico para a compreensão da personagem. Há uma revelação nesse momento.

CURTAS

Carreto, de Marília Hughes e Claudio Marques (BA), tira sua poesia da simplicidade, com a história de um menino que tenta arrumar uma cadeira de rodas para uma garota deficiente. De poucos diálogos, começa por uma descrição a princípio quase etnográfica com as pessoas catando mariscos. O sentido da solidariedade humana, expresso por um menino, torna-se comovente, exatamente porque evita a vitimização dos personagens.

Em A Noite por Testemunha, o brasiliense Bruno Torres aborda um tema traumático para sua cidade e geração - o crime que cinco rapazes cometeram em 1997, queimando e matando um índio patachó, Galdino, que dormia numa parada de ônibus. "O filme é livre adaptação de fatos verídicos", diz o diretor. O desafio era não ser óbvio numa história cujo desfecho todos conhecem. A bem-sucedida solução foi fragmentar a narrativa e trabalhar sobre a culpa dos protagonistas, um trabalho que, de acordo com Bruno, teve influência de leituras de Nietzsche, Freud e Moacyr Scliar.

Azul, de Eric Laurence, trabalha com grandes espaços abertos, uma casinha no meio do nada, onde uma idosa recebe cartas do filho. Analfabeta, tem de levá-las para que a vizinha as leia para ela. Os espaços livres, a lentidão do deslocamento, a solidão - tudo isso expresso mais nas imagens que nas palavras, transmite uma emoção serena a esse filme.

Faço de Mim o Que Quero, de Sergio Oliveira e Petrônio de Lorena, reabilita o universo da música brega num exercício cinematográfico que vem cheio da energia característica do cinema pernambucano. Durante a entrevista, aconteceu um caloroso debate, entre pernambucanos, sobre o papel da música e do cinema na cultura do estado. A conclusão possível é que elas se fertilizam muito bem entre si, como aconteceu nos anos 1990 com o movimento chamado "Árido Movie". Talvez estejamos testemunhando o nascimento do "Brega Movie".

O repórter viajou a convite da organização do festival

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