''Licença'' de Micheletti amplia crise

Decisão de hondurenho de afastar-se do poder antes das eleições aumenta divisão entre EUA e países da região

AFP, AP E EFE, COLABOROU PATRÍCIA CAMPOS MELLO, O Estadao de S.Paulo

21 de novembro de 2009 | 00h00

A decisão do presidente de facto de Honduras, Roberto Micheletti, de afastar-se temporariamente do poder antes da eleição do dia 29 ampliou ontem a divisão entre os EUA e outros países da região no que diz respeito à crise hondurenha.

Micheletti anunciou na quinta-feira à noite que pretende deixar o poder entre os dias 25 e 2 para permitir que as atenções estejam concentradas nas eleições e não na crise política nesse período. Ontem, ele iniciou uma série de consultas com diversos setores da sociedade hondurenha para confirmar a decisão.

O porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Robert Wood, disse que seu país estava "satisfeito" com o afastamento. "Ele abre espaço para que o processo (político) de Honduras avance", disse Wood.

O Brasil, por sua vez, ironizou a medida. "Do ponto de vista legal, ele (Micheletti) nunca deveria ter feito parte do governo. Então, que agora ele diga que se afastará provisoriamente parece um pouco estranho", disse o chanceler brasileiro, Celso Amorim, durante visita a Salvador com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, opinou que o anúncio do afastamento era uma "manobra fácil, para enganar bobos". "Ele não pode renunciar a nada porque na realidade não ganhou nada", afirmou a chanceler do governo deposto, Patrícia Rodas. "Só vai tratar de sair de férias por alguns dias, muito provavelmente para confundir a comunidade internacional."

Os EUA e a América Latina uniram-se na condenação ao golpe em Honduras logo depois que militares expulsaram Zelaya do país, em 28 de junho. As diferenças começaram a surgir com o malogro das tentativas de acordo entre aliados de Micheletti e do governo deposto e a aproximação da data prevista para as eleições gerais.

Os americanos se dizem dispostos a reconhecer o resultado da votação se ela for realizada de forma limpa e estão pressionando para que outros líderes da região façam o mesmo. Na quarta-feira, por exemplo, o senador americano Richard Lugar, líder republicano do Comitê de Relações Exteriores do Senado, divulgou um comunicado exortando os brasileiros a adotar uma posição semelhante.

O Brasil e outros países latino-americanos, porém, consideram que a votação não é legítima porque o governo de facto não aceitou restituir Zelaya ao poder antes que os hondurenhos fossem às urnas, como estava previsto na Proposta de San José. Segundo o assessor especial da Presidência da República Marco Aurélio Garcia, atestar o resultado das urnas seria dar "atestado de bons antecedentes aos golpistas".

Zelaya conseguiu retornar a Honduras em setembro e desde então está abrigado na embaixada brasileira em Tegucigalpa. Agora, ele pede um adiamento da votação.

DESARMAMENTO

Também na noite de quinta-feira, Micheletti anunciou uma operação para desarmar a população hondurenha até as eleições. A medida é uma tentativa de conter ações violentas, diante das ameaças de seguidores de Zelaya de boicotar a votação.

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