Lições de canto com Teresa Berganza

Meio-soprano espanhola dá aula a jovens brasileiros e é homenageada em recital

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

30 de novembro de 2009 | 00h00

"Ela já chegou?" Na tarde de sexta, a jovem soprano de 20 anos não esconde a ansiedade. "Você vai cantar para ela?", pergunta uma colega. "Não, mas, meu, é a Teresa Berganza, vim pelo menos para assistir..." Uma pausa e as mãos vão de encontro à cabeça. "Ai, esqueci a câmera, você trouxe? Tira uma foto minha com ela?" Alguém desce correndo a escadaria do teatro. "A Berganza chegou." Os olhares se voltam para a porta por um instante, ou uma eternidade, antes que surja a imagem daquela senhora diminuta. Brinca com um bebê que acompanha a mãe na plateia, olha em volta. "Boa tarde, boa tarde", diz, em um português bem ensaiado. Os alunos se aprumam nas cadeiras enquanto ela sobe ao palco. Senta-se ao lado do piano, sacode os braços, arruma o cabelo. "Podemos começar?"

Há poucos cantores que nas últimas décadas podem reivindicar para si o posto de intérprete definitivo de determinada obra. A meio-soprano espanhola Teresa Berganza faz parte desse grupo seleto - e com um dos grandes papéis do repertório, a cigana Carmen na ópera de Bizet. Cantou em todos os principais teatros, gravou com os grandes maestros de seu tempo. Desde a semana passada, está em São Paulo, dando master classes a jovens cantores brasileiros que, hoje, fazem no Teatro São Pedro um recital em homenagem a ela.

O primeiro a subir ao palco é o barítono Randal Oliveira, interpretando uma ária de As Bodas de Fígaro, de Mozart. Ela corrige as ênfases, interpreta junto, desce para a plateia para checar a projeção da voz. "Bueno." Ele ataca então uma peça de Bellini, I Puritani. Berganza volta ao palco, se posiciona atrás da pianista, um olho na partitura, outro no aluno. Com os braços, pede que ele ligue uma nota na outra, sustentando a melodia. A diferença é visível. Ela sorri, vira para a plateia, dá uma piscadinha. "Estamos bien."

Sobe ao palco o tenor Marco Antônio Jordão, com ária da ópera O Elixir do Amor. "E a intenção? Você está falando em morrer de amor, acredite nisso!" Ela cantarola a passagem e de repente soa pelo teatro aquela voz, o timbre inconfundível, a intensidade a que nos acostumamos em suas gravações. Os jovens na plateia se entreolham, sorrindo; um fã tira da mochila um antigo LP em que ela interpreta Carmen; pega o encarte, abre-o na foto dela que, do palco, vê e brinca: "Quem é essa?"

Outro tenor, Miguel Geraldi, com trecho de Um Baile de Máscaras, de Verdi. O piano faz sozinho a introdução. "Que música!", ela diz a si mesma, sacudindo a cabeça. "Que música!", repete, e parece entrar em transe durante a apresentação, até que... "Não! Olhe a partitura, precisamos entender por que as coisas estão escritas desta forma. Se há esta pausa aqui, aproveite-a, descanse antes de ir para o final, use a música a seu favor!" No fim, o resultado a agrada - e ela pede a Geraldi que cante esta ária no recital de hoje. Elogios também para o Mozart da soprano Tati Helene, Don Giovanni. "Eu poderia ficar a tarde toda ouvindo essa música. Mozart, sempre Mozart."

Após a aula, conversando com o Estado, ela explica. "Rossini e Mozart se prestam muito bem ao jovem cantor, dois grandes mestres da beleza do canto, podem ser a base sobre a qual se constrói a técnica." Foi assim com ela, explica. E o que dá para ensinar em tão pouco tempo de aulas? "Os jovens estão cada vez menos preparados musicalmente. Preocupam-se apenas com a voz e esquecem o que estão cantando. Sim, a técnica é fundamental, mas tento fazer com que entendam que não é suficiente. Eu prefiro trabalhar com uma voz não tão bonita, mas de personalidade do que com uma voz bonita, mas sem conteúdo."

A carreira de Berganza começou no fim dos anos 50, quando cantou ao lado de Maria Callas. Uma grande influência? "Sim, mas não a primeira. Ouvia, ainda adolescente, no rádio, Victoria de Los Angeles. Tive por ela sempre muita admiração, pela qualidade da voz e pela rigidez na escolha precisa de repertório. Mas nunca a imitei. Cada voz é uma voz. E é responsabilidade do cantor e de seus professores saber escolher o melhor caminho. Há tantos papéis bonitos pelas quais sou apaixonada. Mas minha voz dizia que não. E eu obedecia."

Sobre sua trajetória, ela diz que foi muito fácil - e muito complicada. "Tive sorte porque minha voz se prestava a um repertório muito maltratado naquela época, como as óperas de Rossini, e pude participar da reavaliação desses papéis. Mas ao mesmo tempo, foi preciso sempre muito estudo, não apenas da partitura, mas dos libretos, da história, da época, dos costumes das personagens. E, sempre, tentei compreender meus papéis de maneira mais ampla, estudando a ópera inteira. Estudei 18 anos de piano e isso me ajudou bastante. Também ajuda trabalhar com canções, em que o diálogo entre texto e música é tão sutil que te obriga a chegar a um grau alto de refinamento." Por falar em canções, ela gravou nos anos 70 um disco dedicado a Villa-Lobos. "Que música belíssima. Foi um dos momentos especiais de minha carreira."

E Carmen? "Ah, um grande papel." Ela o gravou com o maestro Claudio Abbado, ao lado do tenor Plácido Domingo. Como foi a experiência? "Eu e Abbado nos entendemos muito bem, tudo fluía naturalmente. Não acho que exista um grande segredo para a interpretação. Está tudo na partitura, você não é mais importante que o compositor e o libretista. Trabalhei com todos os grandes maestros da minha época. Cada um com uma personalidade diferente, forte, marcante. Mas isso só era possível porque entendiam e respeitavam a partitura. Essa é a grande lição."

Que balanço faz da carreira? "O fato é que eu precisaria de 180 anos para cantar tudo o que queria, mas as óperas que cantei foram muito especiais para mim." Ela se despede e, na descida do palco, completa. "Sabe, no fundo acho que tive sempre muita sorte", diz, e vai em direção à porta cantarolando um trecho da Carmen. Tivemos todos.

Frases

"Os jovens estão cada vez menos preparados musicalmente. Preocupam-se apenas com a voz e esquecem o que estão cantando. Sim, a técnica é fundamental, mas tento fazer com que entendam que não é suficiente. Eu prefiro trabalhar com uma voz não tão bonita, mas de personalidade do que com uma voz bonita, mas sem conteúdo."

"Não acho que exista um grande segredo para a interpretação. Está tudo na partitura, você não pode se considerar mais importante que o compositor ou o autor do libreto.

Trabalhei com grandes maestros. Cada um com uma personalidade diferente, forte. Mas isso só era possível porque entendiam e respeitavam a partitura. Essa é a grande lição."

Teresa Berganza

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.