Liderança de Cristina reflete opção por continuidade, dizem analistas

Para analistas, argentinos estão satisfeitos com atual governo e não querem mudar.

Marcia Carmo, BBC

24 de outubro de 2007 | 07h00

A opção pela "continuidade" da atual administração do presidente Néstor Kirchner é o principal motivo para que a primeira-dama e senadora Cristina Fernández de Kirchner lidere as diferentes pesquisas de intenção de votos, de acordo com analistas consultados pela BBC Brasil."Muitos argentinos votam nela por causa dele", diz Hugo Haime, da consultoria Haime e Associados. "Quatro anos seguidos de crescimento recorde, com taxas anuais entre 8% e 9%, são decisivos em qualquer eleição no mundo", afirma Manuel Mora y Araujo, da consultoria Ipsos-Mora y Araujo, referindo-se ao período de expansão econômica, registrado no governo Kirchner. Os dois analistas entendem ainda que a "falta de confiança" nos candidatos da oposição contribui para o fortalecimento da candidatura de Cristina, líder em diferentes pesquisas de opinião na reta final para o primeiro turno do pleito deste domingo, dia 28 de outubro."O eleitor pensa assim: pra que mudar de governo? Pra mergulhar na incerteza? Não, o melhor é continuar como está", analisou Mora y Araujo.Pela última pesquisa realizada pela consultoria de Hugo Haime, há cerca de dez dias, Cristina receberia 47% dos votos válidos nesta eleição. Já pelo último levantamento da consultoria de Mora y Araujo, realizado na semana passada, as intenções de voto na candidata seriam de 41%.Com este números e com a vantagem superior a 10 pontos percentuais sobre os demais candidatos, ela venceria no primeiro turno. A presidenciável, da Frente para a Vitória, tem ainda menor índice de rejeição (38%, segundo pesquisa de Haime) do que os principais candidatos da oposição, como Elisa Carrió, da Coalizão Cívica, e Roberto Lavagna, da UNA, ex-ministro da Economia de Kirchner.Carrió e Lavagna registram (ainda segundo levantamento de Haime) cerca de 60% de imagem negativa."Se houvesse uma crise econômica, a situação poderia ser outra e Lavagna, por exemplo, até poderia ser beneficiado com isso. Mas os argentinos estão contentes. No governo Kirchner, muitos voltaram a ter emprego e a consumir e estes fatos são decisivos para a eleição da candidata do governo", afirmou Haime.Nos quatro anos da administração atual, como recordou o economista Orlando Ferreres, da consultoria Ferreres e Associados, o desemprego caiu de cerca de 25% para aproximadamente 8%.A proporção da população vivendo abaixo da linha de pobreza, citou o economista Ernesto Kritz, da Sel Consultores, saiu de 53%, quando Kirchner assumiu, para cerca de 26% agora. "Para querer mudar um governo, aqui na Argentina, as pessoas precisam estar muito cansadas do modelo. Mas isso não acontece com Kirchner. Um presidente que deixará o governo com 45% de apoio popular", disse Haime. Os lemas da campanha de Cristina são: "cambio y continuidad" ("mudança e continuidade) e "sabemos lo que falta. Sabemos como hacerlo" ("Sabemos o que falta. Sabemos como fazer").A analista política Graciela Römer, da consultoria Römer e Associados, explicou que os slogans, espalhados em cartazes em vários pontos da Argentina, são dirigidos ao eleitor argentino típico, que, em geral, quer mudanças, mas não muitas."Oitenta por cento estão preocupados com a inflação. Mas acham que se alguém vai resolver o problema é o atual governo. Nesse caso, Cristina", disse Römer.Analistas políticos, economistas e formadores de opinião dos principais jornais argentinos destacam que desde que lançou sua campanha, há três meses, a candidata quase não citou os problemas atuais dos argentinos, como a alta dos preços e a insegurança pública."Inflação e insegurança pública preocupam, é verdade, mas não chegam a atormentar o eleitor ao ponto de ele mudar seu voto", disse Haime. No palanque, Cristina costuma destacar os feitos econômicos da gestão do marido e a retomada da "auto-estima" da população durante o governo dele.Kirchner assumiu o cargo em maio de 2003, depois de ter sido eleito, no primeiro turno, com 22% dos votos. O ex-presidente Carlos Menem (1989-1999) renunciou à disputa pelo segundo turno, deixando a vitória para o atual presidente. A Argentina, então, começava a sair da pior crise política e econômica da sua história. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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