Líderes islâmicos tranquilizam mercados após vitória na Tunísia

Um líder do partido islâmico moderado Ennahda, que se tornou a maior força política da Tunísia, se reuniu nesta quarta-feira com executivos do mercado acionário para enviar a mensagem de que o futuro governo, formado na esteira da revolta que inaugurou a Primavera Árabe, será amistoso com a iniciativa privada.

TAREK AMARA E CHRISTIAN LOWE, REUTERS

26 Outubro 2011 | 11h56

Rachid Ghannouchi, do Ennahda, tem se esforçado para tranquilizar os tunisianos laicos e a comunidade empresarial, temerosa com a ascensão de um grupo islâmico ao poder

As autoridades ainda estão tabulando os resultados da eleição de domingo - primeiro pleito democrático na história da Tunísia -, mas tudo indica que o partido Ennahda teve uma ampla vitória.

O secretário-geral do Ennahda, Hamadi Jbeli, disse nesta quarta-feira que ele é o candidato do partido ao posto de primeiro-ministro, informou a agência estatal do país.

"Sou o candidato do Ennahda ao posto de primeiro-ministro... isso é completamente normal, já que em todas as democracias é o secretário-geral do partido vencedor quem assume o cargo de primeiro-ministro", declarou Jbeli, segundo a agência.

Jbeli também afirmou que o Ennahda não vai impor restrições à vestimenta dos turistas estrangeiros nas praias do país e não vai impor normas islâmicas aos bancos.

Além de procurar tranquilizar o mercado financeiro e o setor turístico, os dirigentes do Ennahda sabem também que precisam combater com urgência os problemas do desemprego e da pobreza, que se agravaram desde a revolução que depôs o presidente Zine al Abidine ben Ali.

Uma fonte partidária disse que Ghannouchi transmitiu aos executivos do mercado "a mensagem de que a Bolsa de Valores é importante, e que ele é favorável ao lançamento de novas ações para acelerar o crescimento econômico e diversificar a economia."

A Bolsa de Túnis, que registrou forte queda após a eleição de domingo, se recuperou com a notícia do encontro, e operava em alta de 1,13 por cento às 8h34 (hora de Brasília).

Citando a sua totalização dos votos, o Ennahda disse ter conquistado 40 por cento das vagas na futura Assembleia Constituinte, que também nomeará um novo governo e marcará a data para as próximas eleições, no final de 2012 ou começo de 2013.

Esse resultado, se for confirmado pelas autoridades eleitorais, obrigará o partido a formar alianças com grupos laicos, reduzindo a sua influência.

Falando a simpatizantes na sede do partido, na terça-feira, o coordenador de campanha do Ennahda, Abdelhamid Jlazzi, prometeu que "não haverá ruptura, haverá continuidade porque chegamos ao poder pela democracia, e não pelos tanques".

"Sofremos com a ditadura e a repressão, e agora é uma oportunidade histórica para saborear o gosto da liberdade e da democracia", acrescentou.

Pouco antes, uma candidata que não usa o véu islâmico subiu ao palco para cantar músicas pop libanesas e tunisianas. O partido diz que a inclusão dela é uma prova do seu caráter moderado.

A Tunísia se tornou berço da onda de revoltas conhecida como Primavera Árabe quando, em dezembro de 2010, o vendedor Mohamed Bouazizi se imolou num protesto contra a pobreza e a repressão governamental. O suicídio dele gerou protestos que levaram à queda de Ben Ali, no mês seguinte.

As rebeliões se espalharam então para outros países da região, provocando a deposição dos governos autocráticos do Egito e da Líbia, e a profundas turbulências em países como Síria e Iêmen.

A eleição de domingo na Tunísia transcorreu de forma pacífica e foi aplaudida por monitores ocidentais.

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