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Limpeza olímpica

Genocídio de circassianos em Sochi foi abafado para que o passado lúgubre não afetasse o glamour dos Jogos

Sérgio Augusto,

15 de fevereiro de 2014 | 16h00

Vladimir Putin começou a pagar mais cedo pela ousadia de promover a primeira Olimpíada de Inverno russa na zona subtropical do país. Já está faltando neve nos Jogos de Sochi.

Balneário do Mar Negro, com 144 quilômetros de praia no sopé das montanhas do Cáucaso, refúgio estival das elites da antiga União Soviética, Sochi nunca foi de esqui, patins e trenós, mas de futebol, vôlei e natação, esportes da outra Olimpíada. Ok, a vila olímpica fica alguns quilômetros acima do nível do mar, nos píncaros da região, mas nem lá o inverno caprichou no gelo este ano. Desde o início da semana, os termômetros locais vêm marcando temperaturas incomodamente primaveris.

Ok, um calor inesperado também forçou a Áustria a recauchutar as pistas da Olimpíada de 1964 com neve estocada do inverno anterior, mas Insbruck sempre foi uma estação de esqui, ao passo que - bem, há quem diga que a escolha de Sochi foi a maior maluquice do Kremlin desde que Kruchev, impressionado com os milharais que vira em Iowa, cismou de cultivar milho nas tundras do Círculo Ártico.

Noves fora a temperatura amena, Sochi fica numa região conflagrada, a poucos quilômetros do contestado território georgiano da Abkházia e perigosamente perto das repúblicas russas da Chechênia, Daguestão e Ingushétia, focos de revoltas de radicais islâmicos. Está comemorando 150 anos, que é o tempo que igualmente nos separa do massacre e da expulsão dos circassianos muçulmanos pelo Exército imperial russo, barbárie que vários historiadores consideram o primeiro genocídio da era moderna. Dos primeiros habitantes de Sochi, pois viviam no Mar Negro desde o apogeu da Grécia Antiga, os circassianos que em 1864 lograram escapar à limpeza étnica do czar se refugiaram no Império Otomano e se espalharam pelo Oriente. Como eram analfabetos, o único testemunho por escrito de seu holocausto é uma carta anônima, com um inútil pedido de socorro à rainha Vitória.

Embora ainda sobrevivam 5 milhões de circassianos, a maioria letrada e aglutinada pela internet, esse episódio foi meticulosamente abafado para que o passado lúgubre da cidade não afetasse o glamour da Olimpíada.

Sochi, como tudo na Rússia há 14 anos, foi uma escolha imperial de Putin. O Cáucaso foi seu berço político. Sua Olimpíada é, antes de mais nada, um projeto autopromocional, de enorme valor simbólico. Naquela lonjura ele derrotou os rebeldes chechenos; faltava cimentar a vitória com um evento retumbante, que chamasse a atenção do mundo inteiro e sacudisse o orgulho nacional. Não por acaso, os jogos chegarão ao fim numa data histórica: faz 70 anos no próximo dia 23 que Stalin deportou toda a população chechena para os cafundós do Extremo Oriente e Sibéria, diáspora que resultou na morte de centenas de milhares de pessoas.

A inadequação geográfica é o de menos. Os Jogos de Sochi prometem ser o mais extravagante sorvedouro de investimentos da história das Olimpíadas, de inverno ou verão. Eventos esportivos sempre estouram o orçamento previsto, mas não na proporção da Olimpíada de Sochi. Ao anunciá-la, em 2007, Putin cravou seu custo em US$ 12 bilhões. Os gastos já ultrapassaram a barreira dos US$50 bilhões, mais do que custaram todas as 21 Olimpíadas de Inverno anteriores somadas. Os Jogos de 2010, em Vancouver, saíram por US$ 7 bilhões, que ainda é menos do que se gastou só com os 42 quilômetros de ferrovia ligando Adler, na costa do Mar Negro, à vila olímpica. Com 55 pontes e 22 túneis, é a obra mais dispendiosa da história da Rússia.

As demais (duas usinas de energia, quatro de purificação de água, 420 quilômetros de estradas de rodagem, hotéis, etc.) também podem tornar-se úteis à região e ao seu fortalecimento como polo turístico, mas não precisavam ter enchido tanto a burra das empreiteiras amigas, escolhidas a dedo e na marra pelo autocrático Putin.

Só as empresas dos irmãos Arkady e Boris Rotenberg, companheiros de juventude e judô do presidente, abocanharam 15% do orçamento. Outro velho cupincha, Gennadi Timchenko, pegou a boca-rica ferroviária, "a cada curva, um caso de corrupção", debocham os vigilantes da cornucópia putinista, há nove anos patrulhando as licenças e concessões feitas por Vladimir Yakunin, mandachuva das Ferrovias da Rússia, a estatal que mais emprega no país.

Entrevistado pela rádio suíça SFR, Gian-Franco Kasper, do Comitê Olímpico Internacional, revelou que um terço dos gastos da olimpíada foi devorado pelo pagamento de propinas e outros cala-bocas, expediente consuetudinário das empreiteiras no mundo inteiro. A indústria da construção civil é a mais corrupta do planeta, e a da Rússia excede. Recente relatório da firma de contabilidade Grant Thornton estimou que o "custo da fraude" no setor, em escala mundial, atingirá a cifra de US$1.5 trilhões nos próximos 10 anos.

A ilusão de que a grandeza de um país se mede por sua habilidade para construir obras aparentemente impossíveis, quase sempre monumentais, não lembra apenas o Egito dos faraós, a Alemanha de Hitler, a Itália de Mussolini e o Brasil da ditadura militar, mas também a Rússia soviética. Gorbachev tentou dar um basta a tais delírios; Putin, et pour cause, os ressuscitou, desafiando até a natureza. Também do ponto de vista ecológico, Sochi é uma calamidade, acusam os ambientalistas. A primeira desforra da natureza foi suspender a neve. As outras teremos de aguardar.

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