Marcelo Faustini
Marcelo Faustini

Lincoln já dizia!

Citações presidenciais, champanhe francês, queda de pressão e uma ‘grande m...’. Lá vem Vera Fischer

Roberta Pennafort - O Estado de S. Paulo,

08 Março 2014 | 15h57

RIO - Nem Sabrina Sato, nem Grazi Massafera. Musas contratadas pelos camarotes mais disputados da Sapucaí, as duas beldades, em geral tediosamente comportadas, perderam para Vera Fischer as manchetes mais apimentadas deste carnaval. Aos 62 anos e, havia muito, distante das confusões que lhe renderam a alcunha de "furacão" nas décadas de 1980 e 1990, a atriz pesou a mão no champanhe, passou mal e terminou não participando do desfile da Beija-Flor em homenagem a Boni.

O antigo chefão da TV Globo convidara Vera para compor o carro alegórico com estrelas da emissora, entre elas Tony Ramos, Glória Menezes e Antônio Fagundes. Como os colegas, ela aguardava para desfilar dentro do camarote Rio, Samba e Carnaval, dos mais discretos do Sambódromo. O excesso momesco passaria despercebido se Vera não tivesse sido fotografada ao sair carregada de volta para casa. E se, pouco antes, o bom senso a tivesse impedido de dar entrevista a repórteres ávidos por fofocas estando alcoolizada.

Visto por 60 mil pessoas no YouTube, o vídeo mostra uma Vera com voz alterada, língua solta, sem escudo. Quando lhe perguntam o estilista de seu vestido, ela responde: "Eu comprei essa roupa não sei onde... Numa loja... Encurtei. Quem fez (o enfeite da) minha cabeça eu não sei quem foi. As pulseiras são da Índia. Os anéis são de verdade".

Provocada por um dos repórteres a falar do corpo, confessa que se sente acima do peso: "Eu estou usando 44. É muito para mim, quero baixar para 42". Rindo de modo exagerado e alheia ao que se passava ao redor, ela ainda conta das massagens diárias para chegar à meta: "Há dois anos eu engordei para a novela (Salve Jorge, cujo papel chamou abertamente de uma ‘grande m...’). Para ‘desengordar’, tem que parar de comer e também tem que ter alguém amassando a gente". Até o ex Felipe Camargo, com quem teve um relacionamento ruidoso entre 1987 e 1995, ela mencionou.

A ingenuidade de Vera não foi perdoada: na rede, proliferaram comentários venenosos - "atriz decadente", "estava chapadona", "Fera Fischer" - e também de solidariedade, como os desejos de "força, Vera".

Passado o carnaval, divulgou-se que a atriz precisou de amparo por ter sofrido uma queda de pressão. Ao Estado, por e-mail, ela admitiu: "Eu estava sem beber havia alguns meses, mas lá no camarote havia champanhe francês Dom Pérignon. Todo mundo estava bebendo e eu fiz o mesmo. Mas, talvez, pelo fato de eu estar sem beber há algum tempo, meu organismo esteja sensível. Não desfilei porque tive uma queda de pressão".

Vera disse não ter assistido ao vídeo, e que não liga para o que falam dela. Tampouco pretende mudar seu jeito de ser: "Sempre sou verdadeira nas minhas entrevistas. O público me admira pela minha autenticidade. Não sou um produto de marketing. Já disse Abraham Lincoln: ‘Você pode enganar uma pessoa por muito tempo; algumas por algum tempo; mas não consegue enganar todas por todo o tempo’".

Sem um grande papel desde 2000, quando foi uma Helena de Manoel Carlos, ela acredita que bons personagens virão: "Ao longo da minha carreira, fiz bons amigos na TV. Tenho certeza de que novos papéis vão surgir. Na TV novos rostos surgem, mas está cada vez mais difícil para o ator se manter na lembrança do público. Disso eu não posso me queixar. Se o Brasil é um país sem memória, de mim ninguém esquece. Se eu sair na rua, estando no ar ou não, serei parada. As pessoas sempre são muito carinhosas comigo, seja no Brasil, seja no exterior, onde as novelas da Globo são exibidas."

A catarinense Vera Lúcia Fischer encanta e espanta os brasileiros desde 1969, quando, aos 17 anos, foi eleita Miss Brasil. Protagonista de novelas e de pornochanchadas nos anos 1970, ela abandonou o jeito de menininha protegida de família alemã. No cinema, virou a Super Fêmea (filme de 1972), de maquiagem pesada e corpão violão explorado em figurinos diminutos.

Mais bonita a cada ano, firmou-se como objeto de desejo nacional. Casou-se com Perry Salles (1939-2009), de quem foi amiga até a morte dele; tornou-se mãe de Rafaela em 1979, mas a condição de loira fatal, símbolo sexual de gerações, era indelével. O explosivo relacionamento com Felipe Camargo, do qual nasceu Gabriel, o filho de 21 anos com quem ela divide seu apartamento do Leblon, resultou em brigas por ciúme, escoriações e disputa judicial. Dependente de cocaína, Vera perdeu para o ex a guarda do menino quando ele tinha 4 anos.

Injustamente, o reconhecimento como atriz veio só nos anos 1990, sob as muitas camadas de roupa de Ana de Assis, na minissérie Desejo; no cinema, foi na pele da prostituta Neusa Suely de Navalha na Carne, de 1997.

A idade a serenou, a levou a pintar quadros, escrever livros e sonhar com um netinho. Mas Vera ainda tem suas fragilidades: a última internação em clínica de reabilitação foi em 2011.

Ela sabe que os holofotes sobre si são mais potentes: "No camarote em que eu estava havia várias estrelas. Mas a imprensa sempre presta atenção em mim. Sei também que muitas mulheres se espelham em mim. Certa vez uma pesquisa feita pelo Grupo Datastore, realizada com mais de mil mulheres de diversas faixas etárias, residentes em São Paulo e no Rio, apontava meu nome como a maior referência de beleza para todas as faixas etárias. Não ligo para isso, mas é o que diz a pesquisa".

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