Linhas Aéreas funde circo e teatro em O Animal na Sala

Coreografia de caráter didático festeja os 10 anos da companhia, recriando a história da evolução, do macaco à tecnologia

Helena Katz, O Estadao de S.Paulo

04 Dezembro 2009 | 00h00

Produzido pelo Programa de Incentivo à Dança Paulista, de 2008, e com o apoio da Lei de Fomento à Dança, O Animal na Sala comemora os dez anos da Cia. Linhas Aéreas apresentando-se até domingo no Sesc Santana. Fruto do ambiente que vem sendo gestado pelos editais, estimula uma reflexão sobre alguns dos traços que vêm desenhando um cenário preocupante para a dança.

Trata-se de uma obra nascida da autocomplacência que pauta grande parte do que tem chegado aos palcos. Este fenômeno ecoa uma situação semelhante à da explosão dos blogs que travestem de notícias relevantes as observações mais triviais. Estas vozes, nascidas e sustentadas na autorreferencialidade, operam uma outra lógica sobre a distinção entre o público e o privado, de importante consequência social.

As artes da cena ecoam um fenômeno correlato. Boa parte do que os editais distribui pela cidade conjuga a autocomplacência com a autoreferencialidade. Mas, uma vez que a produção ganha o reconhecimento destes editais, o que fica confirmado, para todos os envolvidos, é que se trata de um ótimo projeto.

O Animal na Sala serve como exemplo dessa situação. O material impresso registra o interesse do grupo nas possibilidades narrativas do gesto e na fusão da dança com o circo e com o teatro. Explicita que o seu objetivo é o de "instigar o questionamento de como o Homem tem lidado consigo mesmo enquanto parte do hábitat". Organiza tudo isso na forma de uma rala história da evolução, começando nos macacos e terminando na tecnologia, com cenas construídas em torno de imagens excessivamente escolares sobre poder, cooperação, conquistas e superação.

Em cena, esse roteiro é traduzido por uma movimentação que trata a narrativa como uma espécie de mímica ponto a ponto, e a dramaturgia como confecção de legendas. E para imitar um macaco ou uma cientista, o recurso é o mesmo: colocar óculos ou engatinhar apoiando-se nos dedos das mãos fechadas.

Lugares-comuns se repetem e a eles se soma um desempenho precário, povoado por impostações que pedem reparos. O que melhor se ajusta é a movimentação do circo mas, infelizmente, não foi a escolhida para estruturar esta criação.

Trata-se de um grupo com vários prêmios. De onde virá a reflexão necessária para rever a inadequação de O Animal na Sala se os editais o consagram? O mais grave é que essa situação não diz respeito apenas a essa criação ou a essa companhia, mas espalha-se pela maior parte do que a fábrica dos editais tem posto em circulação.

Enquanto não for modificada a maneira de se financiar a produção artística no nosso país, não se sai dessa situação. E o que poderia vir a estimular, comporta-se como uma séria ameaça ao desenvolvimento da dança.

Serviço

O Animal na Sala. 70 min. 14 anos. Sesc Santana (349 lug.). Av. Luiz Dumont Villares, 579, telefone 2971-8700. Sáb., 21 h; dom., 19h30. R$ 10. Até 6/12

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