Lirismo e modernidade sobre o palco

Boa execução musical na estreia latina de O Anão, de Alexander Zemlinsky

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

22 Dezembro 2009 | 00h00

Se há algo como um lirismo fragmentado, trágico, ele aparece no momento em que o anão declara seu amor à Infanta, seu desejo romântico de celebrar a vida ao lado da mulher amada. "Duende, se ao menos você não fosse assim", ela, no entanto, responde para si mesma, enquanto observa aquela "cruel brincadeira da natureza". Em O Anão, ópera de Alexander Von Zemlinsky, apresentada pela primeira vez na América Latina no fim de semana, a grande tragédia não está na recusa do amor. O anão viveu toda a vida sem conhecer sua verdadeira forma - até que, na crueldade do ambiente da corte, é colocado frente a um espelho e percebe que não é o "valente cavaleiro" que imaginava ser. Sua autoimagem se desconstrói a tal ponto que não lhe resta outra opção senão a morte.

A história seria banal se não fosse representativa da época em que surge, as primeiras décadas do século 20. A ópera é baseada em um conto de Oscar Wilde, O Aniversário da Infanta. Nele, é central a questão da identidade, como de resto na obra do autor inglês. Fazer o anão se confrontar com o espelho é, na verdade, criar um jogo simbólico no qual o homem é obrigado a se deparar com a própria imagem - e com todo o processo de diálogo entre fantasia e realidade segundo o qual estruturamos nossa existência. E é possível ir além. Da mesma forma que a certeza romântica do anão ao se declarar para a Infanta é implodida e se transforma em dúvida, também a arte daquele momento se distanciava do passado em busca da modernidade. O anão se olhando no espelho é também o artista que, imerso em um mundo em transformação, um mundo no qual já existe o inconsciente sugerido por Freud, opta por uma arte em que o certo é menos interessante que a dúvida. Pois assim, afinal, é o homem.

Não é por acaso que o conto de Wilde e sua temática interessaram tanto a Zemlinsky. Professor de compositores como Arnold Schoenberg, que seria um dos fundadores do modernismo musical, ele se formou à luz da tradição romântica. Sua música está, portanto, no meio do caminho entre o século 19 e 20, constrói melodias ao mesmo tempo em que as desconstrói, invoca o lirismo e o fragmenta, como que sugerindo sua impossibilidade. E o maestro Isaac Karabtchevsky, à frente da Petrobrás Sinfônica, mostrou porque é especialista nesse repertório, criando uma leitura bastante comovente da ópera, atenta à construção e desconstrução dos clímax, àquilo que a música diz e não diz, aos silêncios, assim como aos momentos de maior dramaticidade.

O tenor Marcos Paulo, como o Anão, foi o grande destaque da apresentação de domingo, atento aos detalhes de uma escrita vocal complicada em especial na cena em que se observa no espelho e não consegue reconhecer na imagem refletida o "eu mesmo" de sua fantasia. O timbre da soprano russa Marina Shevchenko é bonito, mas ela é pouco expressiva, passando batida pelo o misto de estranhamento e repulsa que a personagem tem pelo anão. Já a soprano Flávia Fernandes saiu-se muito bem como a dama de companhia Ghita, assim como o barítono Douglas Hahn como don Estoban. Entre as damas, destaque para a meio-soprano Carolina Faria, de voz escura e técnica sólida, que parecem prometer a ela um futuro interessante pela frente.

O diretor André Heller fez o possível para transformar a Sala Cecília Meireles em palco para a ópera - como não há fosso, a orquestra precisou ocupar o palco, deixando pouco espaço para a ambientação cênica, que se fez a partir de poucos elementos, como o espelho ou as marionetes recebidas como presente pela Infanta. As projeções no fundo do palco, ressaltando alguns dos momentos da ação, se mostraram pouco orgânicas no conjunto da encenação. Mas funcionou particularmente bem espalhar o coro feminino, preparado por Julio Moretzsohn e de desempenho excelente, pelos corredores. Com a reabertura do Municipal do Rio, no ano que vem, por que não pensar em voltar à carga, agora fazendo uma dobradinha entre O Anão e outra ópera curta do mesmo período?

O repórter viajou a convite da produção da orquestra

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