Livro traz o dilema de viver dividida entre dois amores

Em O Mundo Pós-Aniversário, Lionel Shriver inspirou-se na própria história para descrever a escolha do homem certo

Entrevista com

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

22 Dezembro 2009 | 00h00

Acostumada a comandar o rumo de seus personagens, a escritora americana Lionel Shriver viu-se, tempos atrás, diante de um drama real, típico de uma boa trama: escolher entre dois homens adoráveis. Nascia, assim, o esboço de O Mundo Pós-Aniversário (tradução de Vera Ribeiro, 544 páginas, R$ 49,90), lançado agora pela editora Intrínseca, responsável também pela edição de outro livro seu, Precisamos Falar Sobre Kevin.

Assim, depois de ter trocado o marido escritor pelo baterista de um grupo de jazz, Lionel criou a personagem Irina, que vive com Lawrence, pesquisador de um centro de estudos estratégicos e notório jogador de sinuca. A situação muda quando ela se apaixona por Ramsey, velho amigo do casal. Mas o que distingue o romance é sua construção: Lionel mostra em paralelo como seriam as duas opções de vida de Irina, ou seja, como seria se optasse por um ou outro. Sobre o assunto, Lionel, que vive em Londres, respondeu, por e-mail, as seguintes questões do Estado.

Por que, dessa vez, crianças não estão no foco da trama? Seria porque você já tratou do assunto em Precisamos Falar Sobre Kevin?

É verdade que eu não estava entusiasmada em tratar novamente de maternidade. Mas havia também razões logísticas pelos quais não envolvi crianças na história de Irina. Eu precisava manter fechados os dois universos paralelos - o contraste entre os dois homens precisava ser sutil. Se os futuros paralelos de Irina se rompessem drasticamente, esses mundos contíguos não gerariam uma tensão. Além disso, concluí que era uma obrigação minha com a estrutura ao seguir por esse caminho. Se Irina tivesse filho com algum desses homens (ou mesmo com os dois), as crianças influenciaram decisivamente o futuro dela, o que impediria minha intenção de manter as histórias em paralelo, a não ser que eu assassinasse essas crianças. Já se Irina constituísse família com Lawrence, o leitor certamente não a perdoaria quando ela o abandona. Uma coisa é você abandonar um homem e seguir seu coração. Outra é você abandonar uma criança. Tendemos a condenar mulheres que fazem isso - talvez com boa dose de razão.

O que decidiu então fazer?

Preferi explorar as rotas contrastantes sem a presença de crianças. É preciso lembrar também que Lawrence tem uma baixa contagem de espermatozoides, o que me permite mostrar como ele se sente inábil para lidar com isso, além de ilustrar seu relacionamento convencionalmente possessivo para a paternidade (ele não tem interesse em adoção ou de optar por um doador de esperma). Irina chega a engravidar de Ramsey mas, como ela já passou dos 40 anos, sofre um aborto natural. Novamente, é a oportunidade para eu mostrar como Irina e Ramsey são de alguma forma geneticamente predestinados um para o outro, pois são naturalmente férteis. E também como, para surpresa dela, Ramsey se desaponta quando ela perde o bebê. Isso o torna mais humanizado e atraente. Assim, O Mundo Pós-Aniversário é minha tentativa de ter uma fatia desse bolo uma vez que Irina precisa decidir seu futuro entre dois homens.

Você se inspirou em um fato real e pessoal, não?

Bem, não pretendi expor minha intimidade, mas alguns anos atrás eu me vi diante da terrível escolha entre dois homens que eu amava muito. Na vida real, a decisão de optar por um deles - e, portanto, de ferir um gravemente - foi certamente a coisa mais dolorosa que já fiz. Claro que o romance utiliza personagens fictícios (não gosto, por exemplo, de jogadores de snooker) e a trama é inventada. Ainda assim, eu queria mostrar como funciona a experiência da traição. Acredito que trair é realmente pior que ser traído, no sentido em que se sabe o que está acontecendo.

Muita se fala sobre a marca deixada por acontecimentos terríveis como o atentado terrorista de 11 de setembro nos Estados Unidos. No livro, isso também é lembrado.

Foi um evento marcante e, como agora temos muitos "romances do 11 de Setembro", não me animei a escrever mais um. Mas é claro que há um par de capítulos ambientados durante a queda do World Trade Center. Meu interesse era menos comentar sobre o assunto e mais evidenciar como aqueles homens lidaram com aquilo. Lawrence e Irina estão em Nova York naquele dia e prestam sua homenagem aos envolvidos com a tragédia. Minha motivação para incluir o 11 de Setembro na história foi criar a cena em que o casal tem uma briga terrível e passa dias sem atender ao telefone ou ligar a televisão, ou seja, completamente alheio ao fato de que, enquanto eles discutiam, o mundo lá fora mudara para sempre. Penso que alguém se sentiria envergonhado por isso. Essa sensação de vergonha me encanta, achei irresistível.

Escrever sobre sexo é sempre complicado.

É verdade. Até porque a linguagem do sexo é uma armadilha: ou se é clínico demais, ou então sujo demais, não tem meio termo. Acredito que o maior erro de muitos escritores está na descrição de cenas de sexo: a maioria é, digamos, muito "geográfica". Você sabe, ele colocou a mão no seu X e então deslizou-a até seu Y... Não, o que me interessa sobre sexo é o que se passa na cabeça das pessoas. O sexo em si, o relato puramente físico de posições ou de práticas sórdidas adotadas pelos personagens, isso é realmente chato. Não traz novidade alguma. Mas o que determinadas pessoas pensam e sentem quando estão na cama, isso é interessante e admite variações infinitas. Quem observar bem as cenas de sexo desse romance vai notar que não são particularmente explícitas no sentido físico. Mas a revelação mental é quase chocantemente explícita.

"Nunca é tarde demais para ser o que você poderia ter sido", escreveu George Eliot. Não poderia ser uma outra epígrafe?

Ah, vou te consultar na próxima vez! Ótima escolha.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.