Livros, para que lê-los?

Tenho dois problemas com a Flip; incompatibilidades, se preferirem. Primeiro problema: as ruas de Paraty. Seu calçamento, como as crianças e a neve, só fica bem em fotografia. Lá, sem dúvida, há sempre uma pedra no meio do caminho. Por não ter sido criado para caminhar sobre aquelas pedras pés de moleque, a todo instante, mesmo sóbrio, me sinto ébrio, e propenso a um tombo, uma topada ou um entorse. Sem ladeiras, a charmosa e aconchegante Paraty seria a cidade ideal para se flanar se tivesse outro calçamento. Paraty é como uma Ava Gardner com doença venérea.

Sérgio Augusto,

14 de julho de 2012 | 04h56

O outro problema é exclusivo da Flip. A feira é uma ideia formidável, como sói ser qualquer iniciativa que promova a literatura e incentive o hábito de ler, além de primorosamente executada, com padrão internacional, mas ouvir autores lendo trechos de prosa é uma das coisas mais enfadonhas que conheço.

Tenho quase certeza de que foram os americanos que inventaram essa forma performática de divulgar livros e aproximar escritores de seus leitores, e de que foi a Flip que a popularizou entre nós. Ocorre que ler, para mim, é um vício solitário. Drummond se expressou com mais elegância: "Ler é um ato individual, como nascer e morrer." O que fazer se quando nasci fazia já 1560 anos que Aurélio Ambrósio, o bispo de Milão que tanto impressionou Santo Agostinho e depois viraria Santo Ambrósio, "inventara" a leitura silenciosa, afinal adotada pelo resto da humanidade?

Toda vez que um convidado da Flip começa a ler um livro para a plateia, ali pelo segundo ou terceiro parágrafo minha mente começa a divagar e entra em alfa, deixando-se às vezes dominar por fantasias absurdas e até perversas. Este ano, em meio aos meus habituais devaneios, cheguei a imaginar como seria a Corrida de São Silvestre nas ruas de Paraty e o Rio Perequê-Açu, que corta a cidade, percorrido em gôndolas.

Os audiobooks? Nunca experimentei. Curiosidade não me falta. Passei boa parte da infância colado ao rádio, empolgando-me com a ficção de novelas e séries aventurescas, experiência aural tenho de sobra. Os audiobooks são em geral gravados por locutores e intérpretes profissionais, e isso faz uma baita diferença, quase sempre para melhor. Certos leitores preferem ouvir a voz do próprio autor; desse fetiche não padeço. Muitos escritores submetem suas obras ao teste da leitura em voz alta, antes de submetê-las ao veredicto de seus editores. Acreditam, com razão, que uma boa prosa, a exemplo da boa poesia, deve ser escutada sem ferir os ouvidos. Até aí eu vou.

O chileno Alejandro Zambra, autor de Bonsai (recém-traduzido pela Cosac Naify), vai além: é um entusiasta dos audiobooks. Não tocou nesse tópico em seu dueto com o catalão Enrique Vila-Matas, na Flip deste ano, mas num dos textos de No Leer, sua coletânea de ensaios sobre literatura, editada há poucos meses em Barcelona pela Alpha Decay. Ao autorizar a reprodução em forma de audiobook de toda sua obra romanesca, só modesta em tamanho, Zambra impôs apenas uma condição: que os textos fossem lidos por um chileno ou outro latino-americano, não por um espanhol, "que tem modo de falar totalmente distinto".

Mais além vai o chileno. Há três anos defendeu, entusiasticamente, a pirataria literária. Partindo do fato de que os livros, no Chile, são escandalosamente (um de seus advérbios favoritos) caros, publicou um Elogio da Fotocópia, em que revelava ter formado seu gosto literário à base de reproduções xerocadas, a que chama de "livros de mentira". Clarice Lispector foi uma das referências fundamentais que primeiro leu em versão pirata.

Zambra tinha um amigo que, ao copiar 30 páginas de Guerra e Paz por semana, transformou Tolstoi num autor de folhetim, num Dickens russo. Para quem vive exclusivamente do que escreve e publica, a fotocópia é escândalo maior que o preço dos livros de verdade. Zambra, que polidamente não tocou nesse assunto, foi uma das gratas surpresas da Flip.

Das surpresas negativas, a maior de todas talvez tenha sido o americano Jonathan Franzen. Gosto dos dois romances que dele li (As Correções e Liberdade), de seus ensaios (aqui reunidos em Como Ficar Sozinho, editado, como os outros, pela Companhia das Letras), simpatizo com seu orgulho de "entender a vida" no contexto do dostoievskiano Raskolnikov e do faulkneriano Quentin Compson, "não no de David Letterman ou Jerry Seinfeld", compartilho algumas de suas angústias, mas sua tão aguardada apresentação na feira foi embaraçosa do começo ao fim.

Graças ao YouTube, já assistira a quatro ou cinco entrevistas de Franzen, sabia-o meio tímido e retraído, pouco confortável diante de um microfone, mas o show de pausas, titubeios e olhares blasés que ele deu no segundo dia da feira deixou a plateia metade perplexa, metade irritada. Até para responder a perguntas de ínfima complexidade, fazia silêncios teatrais - para em seguida soltar uma platitude ou um comentário jocoso constrangedoramente sem graça.

Uns o acharam apenas esquisito; outros, em número bem maior, um tremendo chato; e outros mais, um gozador. "É um mala", me alertara Lúcia Guimarães, que o conhecia de um tête-à-tête jornalístico e obas & olás sociais. Também ela desconfia que ele só aceitou vir a Paraty para observar pássaros em Ubatuba patrocinado pela Flip.

Imaginei-o numa mesa com Teju Cole - cujo romance Cidade Aberta (Companhia das Letras) começa com alusões aos pombos, pardais e carriços que sobrevoam Morningside Heights, em Manhattan -, mas é duvidoso que, mesmo na Flou, desse a necessária liga. Flou é a Feira Lítero-ornitológica de Ubatuba, que por enquanto só existe na minha imaginação e é recomendável que de lá não saia.

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