Beto Oliveira/AE
Beto Oliveira/AE

Lixo hospitalar abala 2º polo de confecção do País

Acuada com escândalo, Santa Cruz do Capibaribe, no agreste pernambucano, elege importador da carga suspeita como inimigo nº 1

Angela Lacerda, Enviada especial, SANTA CRUZ DO CAPIBARIBE,

23 Outubro 2011 | 03h02

Gerusa de Andrade Silva, de 38 anos, nasceu entre malhas e máquinas de costura em sua casa em Santa Cruz do Capibaribe, no agreste pernambucano, a 205 quilômetros do Recife. Ela é a penúltima dos 12 filhos de Faustino e Adelaide Andrade da Silva, pioneiros na produção da sulanca, na década de 50, como forma alternativa de sobrevivência em uma terra de pouca chuva.

Corruptela de sul e helanca, sulanca designa as confecções baratas que começaram a ser vendidas nas feiras do agreste com a malha trazida do Sul e deram origem a um polo têxtil que hoje engloba 14 municípios na região, com mais de 22 mil empresas - 18 mil delas informais - e empregam 150 mil pessoas.

A apreensão, pela Receita Federal, no último dia 11, no Porto de Suape, de dois contêineres importados pela empresa Na Intimidade, do município, com 46 toneladas de material com indícios de lixo hospitalar - lençóis sujos com logomarca de hospitais norte-americanos, além de cateteres, seringas e luvas usadas - apavorou a cidade. E promoveu a união de todos contra o empresário cearense Altair Teixeira de Moura, apontado como responsável pela importação irregular.

"Estou com muita vergonha, nunca tinha ouvido falar nessa história de lixo hospitalar ", resume Gerusa. Ela começou a costurar aos 10 anos, ajudando a mãe. Adora o que faz, trabalha das 8 às 22 horas no pequeno terraço da casa, tem férias de 20 dias por ano e costura 5 mil peças por semana - shorts para malhação e blusas.

"Um corta, outro costura, outro revisa, outro faz entrega, outro comercializa", diz ela, sobre o envolvimento de todos no empreendimento familiar, o Julia Moda Cotton. Os pais, com 80 anos, não trabalham mais. Duas das irmãs de Gerusa abriram suas próprias empresas, formais.

Emprego. Com uma população de 90 mil habitantes, Santa Cruz do Capibaribe é o segundo maior polo de confecções do País, concentra mais da metade das empresas do setor têxtil pernambucano e se gaba por não ter desemprego.

Em meio à repercussão do caso, o movimento de negócios na região caiu assustadoramente nos últimos dias. O teste será hoje no Moda Center Santa Cruz. Inaugurado em 2006, é considerado o maior shopping atacadista da América Latina. Abriga 9.312 boxes e 707 lojas em uma área coberta de 120 mil metros quadrados e recebe em torno de 30 mil clientes de várias regiões, especialmente do Norte e Nordeste, de domingo a terça-feira.

O clima é temor em relação ao fim do ano, quando cerca de 100 mil atacadistas chegam, por semana, ao Moda Center, para fazer seus estoques de Natal.

A carga declarada na guia de importação da Na Intimidade - "tecido de algodão com defeito" -, na prática, colocou todo o polo sob suspeita. Moura depôs na Polícia Federal alegando ter sido enganado, pois não teria importado tal material. Mas o estrago estava feito.

Um comitê gestor da crise foi criado - integrado por empresários, prefeituras do polo, governo do Estado e autoridades sanitárias - e Santa Cruz do Capibaribe se empenha numa operação pente-fino, buscando limpar seu território de qualquer vestígio de lençol, toalha, jaleco e fronha com inscrições de hospitais norte-americanos. Até o FBI, a polícia federal americana, está investigando o caso. "É muita gente com a vida em jogo", resume o diretor do Clube de Diretores Lojistas (CDL) local, Bruno Bezerra.

Quem fabrica e vende calças e bermudas faz questão de mostrar as roupas pelo avesso para provar que não usa o tecido dos lençóis hospitalares. "Nossa mercadoria tem controle de qualidade e fabricamos os próprios forros dos bolsos, não compramos em retalho", diz Wellington Curvelo da Silva, de 27 anos, gerente da Dranreb's jeans wear.

O ressentimento contra Moura é antigo. Édson Soares, da Davi Moda Infantil, comentou o que está na boca de muitos. O empresário, que vende forro de bolso, seria responsável por uma concorrência desleal que teria levado pelo menos três pequenos comerciantes a mudar de ramo. "Quando ele chegou a Santa Cruz, vendia o forro de bolso a R$ 5 o quilo, não dava para competir", diz.

O comércio de lençóis de hospitais brasileiros em várias partes do País - até mesmo em Santa Cruz do Capibaribe - não é levado em conta. "Encontrar lençóis de sobras de produção de tecelagens brasileiras não é crime", reage Bezerra, do CDL. "É uma prática de décadas, se procurar no Brás (bairro paulistano) vai achar muito", acrescenta.

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