Lobby de Lula e empresários coloca Venezuela a um passo do Mercosul

Por 12 votos a 5, comissão do Senado aprovou ingresso do país de Hugo Chávez no bloco econômico sul-americano

Christiane Samarco e Eugênia Lopes, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

30 Outubro 2009 | 00h00

O ingresso da Venezuela no Mercosul foi aprovado ontem, na Comissão de Relações Exteriores do Senado, por 12 votos favoráveis e apenas 5 contrários. O placar é produto da força do lobby dos empreiteiros e empresários que têm interesses econômicos na Venezuela, somada à pressão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Lula, que está em sua quarta visita este ano à Venezuela, pode dar pessoalmente a boa notícia ao presidente Hugo Chávez, na certeza de que o plenário do Senado confirmará, na semana que vem, a decisão da comissão.

Como o Protocolo de Adesão da Venezuela ao Mercosul já foi aprovado pela Câmara, o governo não terá dificuldade em repetir a façanha no plenário do Senado. Para isso, bastará garantir a presença mínima de 41 dos 81 senadores e o voto favorável da maioria destes, ou seja, 21.

A força dos lobbies do empresariado pode ser traduzida em números. A Venezuela importa 70% de tudo o que consome e representa o maior superávit da balança comercial brasileira. Já é nosso sexto maior destino comercial. Nos primeiros cinco anos de governo Lula, as exportações para a Venezuela cresceram de 758%, saltando de US$ 608 milhões para US$ 5,15 bilhões. Cerca de 72% dessas exportações são de produtos industrializados, com elevado valor agregado e alto potencial de geração de empregos.

Hoje, o Brasil tem com o país vizinho seu maior saldo comercial: US$ 4,6 bilhões, 2,5 vezes superior ao obtido com os Estados Unidos (US$ 1,8 bilhão).

Foi diante desse quadro que empreiteiras e representantes de vários setores da produção atuaram no Congresso em favor de Chávez. Um dos líderes da base aliada comentou que o embaixador Paulo de Tarso Flecha de Lima foi à Comissão de Relações Exteriores, "com toda a elegância", em defesa dos interesses da construtora Norberto Odebrecht. Teria argumentado que, se o Senado não ampliasse o Mercosul, a Venezuela se abriria aos produtos chineses em detrimento dos brasileiros.

APELO A VIRGÍLIO

Nas três horas e meia de debates, o líder tucano no Senado, Arthur Virgílio (AM), contou que as entidades empresariais do Amazonas lhe apelaram em favor da Venezuela. Ainda assim, ele se manteve alinhado ao parecer do relator Tasso Jereissati (PSDB-CE), que recomendara o veto à adesão.

Como alternativa, Virgílio e o líder do DEM, José Agripino (RN), argumentaram que a saída seria a criação de área de livre comércio com a Venezuela. "Dessa forma não precisaríamos segurar o ônus do palanque anti-EUA que Chávez montará", justificou o tucano.

A esperança da oposição, agora, é que o próprio Chávez ponha a perder a aprovação iminente no plenário. Avaliam que o venezuelano é "incontrolável" e, por isso mesmo, corre o risco de falar algo que contamine a votação no Senado.

Esperam, ainda, contar com a presença do senador Fernando Collor (PTB-AL) para virar votos à última hora. Raro caso de governista que defendeu publicamente o veto à Venezuela, Collor passou esta semana viajando e faltou à votação de ontem, depois de ter sido chamado ao Planalto por Lula, que assumiu a defesa pública do governo Chávez e entrou pessoalmente na caça aos votos.

A maioria governista também prevaleceu na votação do requerimento apresentado pelo senador Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR), propondo que um grupo de senadores fosse à Venezuela para verificar as violações à democracia denunciadas pelo prefeito de Caracas, Antonio Ledezma. A proposta foi derrubada por 10 votos contrários, frente aos 8 senadores que queriam usar a visita para adiar a decisão do Mercosul.

Tasso ainda frisou que, do ponto de vista econômico, será impossível manter uma relação comercial com políticas tributárias, fiscais e um acordo tarifário comum. "Não queremos derrubar o governo Chávez. O que queremos é o respeito às regras do Mercosul", insistiu Tasso. Não convenceu.

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