Local do túmulo de Borges gera controvérsias

O lugar do derradeiro descanso de Jorge Luis Borges foi objeto de intensa polêmica ao longo do último quarto de século. A discussão começou semanas antes da morte do escritor, quando seus amigos descobriram que sua secretária, María Kodama, havia levado Borges - que estava com um câncer terminal - embora da Argentina e casado com ele por procuração por intermédio de Gustavo Grament Berres, que se apresentava como cônsul paraguaio em Genebra. O suposto cônsul registrou o casamento no desconhecido vilarejo de Colonia Rojas Silva, Paraguai.

Ariel Palacios, Correspondente / Buenos Aires

10 Junho 2011 | 18h56

Mas a trama tornou-se intrincadamente borgiana quando jornalistas argentinos que investigavam o misterioso casamento descobriram que o nome original do ex-cônsul era Benjamin Levi Avzarradel. Ele teria nascido na Argentina, entretanto havia sido adotado por um casal de uruguaios na tardia idade de 29 anos. Para complicar, o governo paraguaio não reconhecia Grament Berres nem como cônsul nem como cidadão paraguaio. "É uma coisa estranha...Kodama apresenta-se atualmente, para qualquer tipo de documentação, como 'solteira' e não como viúva", afirmou ao Estado Alejandro Vaccaro, biógrafo de Borges, enquanto levanta uma sobrancelha em sinal de desconfiança.

No dia 14 de junho de 1986, em Genebra, Borges morreu, em consequência de um câncer no fígado. Por determinação de Kodama, o escritor foi enterrado no cemitério de Plainpalais, na vizinhança dos túmulos do líder presbiteriano João Calvino e do filósofo Erasmo de Rotterdam. No entanto, Borges nunca escreveu uma linha que ratificasse um hipotético desejo de ali ser enterrado.

Durante as duas e meia últimas décadas os amigos de Borges, em uníssono, afirmam que Georgie - como o chamavam carinhosamente - queria ser enterrado em Buenos Aires, mais especificamente no histórico cemitério da Recoleta, no mausoléu de sua família. "Borges nunca quis ser enterrado fora de Buenos Aires", disse em entrevista ao Estado em 1999 o escritor Adolfo Bioy Casaras, seu amigo por meio século. Fani Uveda, empregada dos Borges durante décadas, concordou com Bioy em uma entrevista ao Estado em 2005. "O senhor Borges queria ser enterrado na Recoleta", disse.

Além dos amigos, os acadêmicos destacam que Borges, em vários de seus poemas deixou claro que pretendia passar o repouso eterno na Recoleta. Os especialistas citam o poema O Fazedor, no qual Borges refere-se a seu futuro descanso em Buenos Aires: "Quando eu esteja guardado na Recoleta / em uma casa cor de cimento". Em Fervor de Buenos Aires, Borges indica: "Estas coisas pensei sobre a Recoleta / o lugar de minhas cinzas".

Outro fator que reforça a teoria de que o escritor pretendia ser enterrado na Argentina é que em 1982 deu uma procuração à sua amiga Sara Kriner para proceder com sua cremação após sua morte. Um ano antes de morrer Borges chamou o zelador do cemitério para que lhe fizesse um orçamento a fim de preparar o mausoléu na Recoleta para um lugar para suas cinzas.

Kodama defende-se afirmando que Borges, antes de morrer, expressou que desejava ser enterrado "na neutra Suíça".

Vaccaro não descarta que um dia o corpo de Borges retorne ao país: "Talvez ele volte quando a passagem do tempo faça com que essas paixões se acalmem. A Argentina tem uma forte tradição de repatriar seus homens célebres, como Carlos Gardel e o general José de San Martín, mortos no exterior". Em 2007, um grupo de deputados do peronismo - partido que havia considerado Borges como um "inimigo" - encaminhou um projeto para trazer o corpo do escritor.

Maria Ester Vázquez, biógrafa e amiga do escritor disse ao Estado que pouco antes da partida para a Suíça, Borges gritava "não quero ir embora! Se eu for, morrerei lá!".

Cronologia Jorge Luis Borges

1899

Nasce, em 24 de agosto, em Buenos Aires, Argentina.

1908

Aos 9 anos, graças ao aprendizado de inglês, em casa, traduz o conto O Príncipe Feliz, de Oscar Wilde

1914

Com o início da 1ª Guerra, a família Borges se instala em Genebra. O futuro escritor aprende francês, latim e alemão.

1922

Primeira grande paixão de Borges, Concepción Guerrrero. Outros amores, platônicos ou não, viriam depois: Elvira de Avear, Estela Kanto e a última, Maria Kodama.

1923

Publica seu primeiro livro de poemas, Fervor de Buenos Aires

1931

Passa a integrar o grupo de escritores reunidos em torno da revista Sur, criada por Victoria Ocampo

1932

Conhece Adolfo Bioy Casares, sua mais fecunda amizade e parceria literária

1935

Lança História Universal da Infâmia, livro que ficcionaliza histórias alheias

1938

Perde o pai e sofre um acidente. Começa a perder a visão

1944

Publica Ficções, referência maior de sua obra literária

1946

Perón assume a presidência da Argentina e Borges perde o cargo que ocupava na Biblioteca Municipal de Buenos Aires. Ele será nomeado diretor da Biblioteca Nacional em 1955, quando Perón é derrubado por um golpe militar.

1970

Publica O Informe de Brodie, contos que adotam a linguagem realista. Divórcio de Elsa Astete Millán.

1974

Lança as Obras Completas e dedica o volume à mãe.

1982

Publica Nove Ensaios Dantescos, leitura da Divina Comédia de Dante, que considerava o melhor livro do mundo.

1984

Visita, pela segunda vez, São Paulo, reunindo uma multidão para ouvir sua palestra.

1985

Dedica Os Conjurados à companheira María Kodama, com quem se casaria pouco antes de morrer.

1986

Morre de um câncer hepático, a 14 de junho de 1986. Seus restos mortais estão no cemitério de Genebra.

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