Lonas e banners viram moda nas mãos de presidiários do Rio

ONG consegue transformar lixo que demoraria 500 anos para se decompor em acessório

Clarissa Thomé, Rio, O Estadao de S.Paulo

17 Dezembro 2009 | 00h00

O hambúrguer do anúncio da lanchonete enfeita a bolsa-carteiro. Na sacola da academia nem parece que a estampa é da propaganda de cerveja. O festival de cinema, que agitou o Jockey Club até domingo, também vai virar linha de acessórios. "Use a cidade" é o desafio proposto pela ONG TemQuemQueira, que reaproveita banners de publicidade. As lonas coloridas viram mochilas, bolsas e carteiras nas mãos de detentos das cadeias fluminenses.

A ideia foi de Marco Luna e Adriana Meyer, produtor e diretora executiva da LG Ventura, empresa de eventos. Eles estavam preocupados com o destino de todo o lixo que produziam e ainda em preservar a marca das empresas. "Nós fomos contratados para uma festa em que fizemos um túnel de lona de 10 metros, com o nome de todos os funcionários da empresa. Dias depois, na Lapa, eu vi um grupo de mendigos dormindo sobre as assinaturas dos nossos clientes", conta Luna.

Começaram a buscar uma saída para aquele lixo, formado por centenas de metros de lona vinílica, material que leva 500 anos para se decompor. A primeira proposta foi feita aos clientes: os banners virariam brindes, para serem distribuídos depois do evento. Mas o negócio cresceu. E a cooperativa de mulheres de Santa Teresa, bairro da zona sul do Rio, já não dava conta do recado. Eles fizeram convênio com a Fundação Santa Cabrini e hoje têm oficina em um presídio em Niterói.

Em dois anos, 100 mil m² de lona deixaram de ir para o lixão. "A operação no presídio é bem mais cara, mas a mão de obra é receptiva. Eles nunca pegaram numa máquina de costura, mas querem aprender. E eles são organizados", elogia Adriana. "Mantemos o foco no resultado, a TemQuemQueira é autossustentável."

TRABALHO DIVIDIDO

Um detento corta os banners. "Ele tem olho para pegar o melhor ângulo, aproveitar as imagens. Não usamos as marcas das empresas", explica Luna. Outros costuram o molde. E há os que executam o acabamento. A maioria cumpre pena por tráfico. Um foi "piloto de fuga" de assaltos. Sem a perna direita, acelerava o carro com a muleta. Acabou preso. Mas se sobressaiu como costureiro. Ganhou uma máquina da sogra e vai trabalhar para a TQQ quando obtiver a progressão para o regime semiaberto.

As bolsas exclusivas (não há estampa igual à outra), à prova d"água e resistentes, ganharam as ruas e a ONG levou, no início do mês, o prêmio Rio SocioCultural, que tem chancela da Unesco. Há alguns meses, as peças da grife começaram a ser vendidas num quiosque no Metrô do Largo da Carioca (toda a publicidade do Metrô Rio também vira acessório da TQQ), na descolada Papel Craft e na Alfaias, loja de cama, mesa e banho, que também recicla seus banners.

"Eu voltei de viagem no último fim de semana e me dei conta que tudo era da TemQuemQueira: o porta-passaporte, a mochila, a bolsa, a nécessaire", enumera a diretora de Eventos de Esporte Márcia Cintra, de 52 anos. Ela conta que já foi parada para dar entrevista num evento de modas, porque estava com uma bolsa da TQQ.

No quiosque, as prateleiras começam a ficar vazias: porta-documentos, shoppingbags, pastas para notebook, porta-níqueis estão entre os preferidos por quem escolhe presentes de Natal. "Lá em casa todo mundo vai ganhar presentes daqui", diz a vendedora Clara Sampaio, de 21 anos.

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