Londres 2012: Brasil, o anônimo anfitrião para os estrangeiros

À exceção do futebol, atletas do país são desconhecidos do público internacional.

BBC Brasil, BBC

06 de agosto de 2012 | 09h00

Sem avanços substanciais no número de medalhistas e de atletas de peso internacional, o Brasil corre o risco de fazer, em 2016, o contrário do que a Grã-Bretanha vem fazendo em Londres. Considerando-se o que dizem espectadores ouvidos pela BBC Brasil na capital britânica, o anonimato brasileiro nos Jogos de 2012 poderá se traduzir, em 2016, em um espetáculo em que o público terá que escolher não-compatriotas para torcer.

Se nos estádios de 2012 o público britânico delira com inúmeras conquistas e a terceira posição do país no quadro geral de medalhas, atrás apenas de China e Estados Unidos, os futuros anfitriões convivem com a expectativa de, no máximo, repetir nos Jogos atuais o desempenho de Atlanta (1996) ou Pequim (2008) - meta do Comitê Olímpico Brasileiro. Um sinal de que é difícil esperar muito mais em apenas quatro anos.

Em 1996 e 2008, o Brasil conquistou 15 medalhas, das quais três de ouro, melhores desempenhos da história do país no evento.

"Do Brasil, conheço o Ricardo", diz, meio sem jeito, o dinamarquês Kristian Morch, que foi parar "por coincidência" em uma partida do vôlei de praia na qual os brasileiros Ricardo e Pedro bateram uma dupla espanhola. "Mas não conheço mais ninguém que não seja jogador de futebol", diz ele, ao lado dos amigos Mads Madsen e Jonas Hansen, na entrada do Parque Olímpico em Londres.

"Escolhemos o que ver nestes Jogos aleatoriamente. Calhou de ver o Brasil no vôlei de praia. Achei a dupla muito boa", disse Jonas, sem saber que o esporte já deu nove medalhas olímpicas ao Brasil, um dos poucos desempenhos dignos da torcida brasileira que comparece em peso à arena da Horse Guards Parade.

Como eles, todos os estrangeiros ouvidos pela BBC Brasil no Parque Olímpico admitem que pouco sabem dos esportes do país quando o assunto não é futebol. E refletem o desempenho modesto dos esportes brasileiros, incapazes de atrair atenção da mídia internacional e despertar interesse para além da barulhenta e provavelmente insatisfeita torcida brasileira.

'Havia um brasileiro'

O Centro Aquático de Londres estava cheio, mas eram poucos os brasileiros a sacudir a bandeira verde-e-amarela nas arquibancadas. Naquela noite, o único medalhista de ouro do Brasil na natação - e até então favorito para uma nova conquista em Londres - saltaria na piscina para confirmar as expectativas e garantir a classificação para as finais.

Cesar Cielo não foi muito aplaudido. Nem quando venceu sua semi-final. Também não causou comoção, em uma plateia formada majoritariamente por americanos e britânicos, rivalizando na gritaria, embora os americanos tenham levado a melhor na água. Também faziam barulho holandeses, australianos e japoneses, em apoio às potências da natação.

"Havia um brasileiro? Não conheço, quem é?", pergunta a britânica Nikki Woodruff, ao lado do marido Malcolm, que se esforça para lembrar de um atleta verde e amarelo. "Claro que lembro dos britânicos, australianos e americanos. Eles são maioria, né?", justifica.

A algumas fileiras dali, a australiana Allie Edwards finalmente acerta o nome do mais importante nadador brasileiro. "Cielo, certo? Vi na TV ontem. Ele já competiu?", pergunta, sem ter notado a vitória do brasileiro.

Ao lado dela, outro australiano, Adam Lovie, pondera. "Não sei se você perguntar aos ingleses, eles saberão mais de 15 nomes do próprio time. Mas é claro que China, Estados Unidos, Jamaica, Grã-Bretanha e Austrália acabam chamando mais atenção. Porque ganham mais medalhas, são mais frequentes no circuito internacional e têm uma história no esporte. As pessoas prestam atenção, naturalmente".

'João do Pulo e Vanderlei Cordeiro de Lima'

Cielo encerrou sua semi-final nos 50m em primeiro - empatado com o americano Jones Cullen. Logo em seguida, o também brasileiro Bruno Fratus faturaria a segunda semi-final. O desempenho dos dois não se repetiria nas finais, porém.

Acompanhado pelo filho Aron, o belga Alain Van Droessche diz que, claro, conhece Cielo. E que também gosta dos boxeadores brasileiros. "Eles melhoraram muito e ganharam respeito dos juízes", avaliou o belga. Nas noites seguintes, praticamente todos os pugilistas brasileiros veriam o sonho de medalha ser alvejado pelas luvas de cubanos, porto-riquenhos e americanos.

"O problema é que, se você observar o desempenho da Grã-Bretanha em Pequim, entenderá o porquê de estarem tão bem nos jogos em casa. Do jeito que vai o esporte no Brasil, capaz de em 2016 os brasileiros irem aos estádios torcer por atletas estrangeiros", avalia Alain, que trabalha para uma TV belga e "acompanha esportes de perto". Além do recém saído da piscina Cielo, ele lembra "apenas de grandes atletas brasileiros, como João do Pulo e Vanderlei Cordeiro de Lima".

Comparar seu desempenho ao de outros países de mesmo porte pode ajudar, avalia o holandês Dirco Verburg. Ele diz que "nem reparou que havia um brasileiro na piscina" e que veio a Londres para ver a forte equipe de seu país na natação. "Sempre nos comparamos à Austrália, porque são países com populações mais ou menos semelhantes (a Holanda tem cerca de 16 milhões de habitantes, a Austrália, 22 milhões). Acho que isso ajuda a definir a política de esportes na Holanda. E no Brasil, como é?", ele pergunta.

Nos Jogos de Londres, a Holanda conquistou até agora oito medalhas, sendo 3 de ouro. Já Austrália conquistou 20, uma das quais de ouro.

O anonimato dos atletas brasileiros pode ser natural em uma competição sediada em um país de língua inglesa e com grande cobertura da mídia em inglês. Pode ser também falta de tradição - já que Londres sedia pela terceira vez os Jogos, e a Europa, pela décima sétima. E os Jogos do Rio serão os primeiros na América do Sul.

Mas, levando-se em conta o desempenho do atual anfitrião, pode-se dizer que Grã-Bretanha fez entre Atenas, quando conquistou 30 medalhas, e Pequim, quando chegou a 47, muito mais do que o Brasil fez entre Pequim e Londres. E isso define o fututo do esporte brasileiro nos Jogos do Rio. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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