Londres 2012: Conheça os esforços para tornar as Olimpíadas mais 'verdes'

Organizadores dos Jogos tentam fazer com que o evento seja lembrado como o mais ecológico de todos os tempos.

Richard Black, BBC

06 de fevereiro de 2012 | 14h45

Para os Jogos Olímpicos que se dizem "os mais verdes da história", em uma cidade que pretende ser a "mais verde da história", sob um governo que se proclama "o mais verde da história", eu vejo pouquíssimas áreas verdes em minha visita ao local que abrigará as provas.

As cores dominantes são o cinza - do céu, onde nuvens carregadas com neve se estendem até o horizonte, e das arenas completas - e o marrom - dos prédios já construídos.

Para ser sincero, tudo parece mais um canteiro de obras, e não um parque verde.

Mas, quando o verão chegar na Grã-Bretanha -, acreditando-se que haverá um verão de verdade - as coisas podem já ter mudado bastante por aqui.

Além de se empolgar com atletas do calibre de Usain Bolt e Michael Phelps, os visitantes também poderão relaxar e aproveitar a companhia de pássaros guarda-rios e lontras nas águas recém-despoluídas do rio Lea, que corre pelo local.

Passado poluído

Tendo morado há anos perto da região, eu visitei essa área inúmeras vezes ao longo dos anos. A vista não era nada bela. Ao longo das margens do rio, dezenas de fábricas decrépitas surgiam na paisagem.

O impacto ambiental também não era nada favorável.

"Seja nos últimos anos ou há um século, havia aqui armazéns de químicos, fábricas de sabão, curtumes - todo tipo de indústria que ninguém gosta de ter no seu quintal, que haviam se mudado para o leste de Londres", afirma Rob McCarthy, diretor para assuntos olímpicos da agência ambiental do governo (a Environment Agency).

"Havia metais pesados, hidrocarbonetos, arsênico e cianureto em alguns níveis no solo."

Um dos acordos entre a agência ambiental e a Olympics Delivery Authority (ODA, uma das duas agências que organiza os Jogos de Londres) foi destinado à limpeza geral da região.

Primeiro, o lixo foi retirado manualmente. Em seguida, um equipamento gigante de limpeza do solo foi instalado no local.

No total, dois milhões de toneladas de solo passaram pela máquina, que retirou os poluentes. Cerca de 95% do solo foi reutilizado na construção.

"É uma situação em que todos saem ganhando com a reutilização do solo, porque passa a ser desnecessário ter caminhões com terra indo e vindo no local", diz Chris Smith, que é diretor da Agência Ambiental.

Também há benefícios financeiros, já que não é necessário pagar nenhum imposto ao se reutilizar o solo local.

Águas escuras

Os aquíferos sob o solo industrial também estavam poluídos. A água ainda está sendo retirada, filtrada e devolvida ao solo.

Com isso, o rio Lea - um dos mais poluídos da história recente do país - agora está muito mais limpo.

E essa não foi a única transformação do rio.

No século passado, muitos rios receberam margens de concreto, que ajudavam a conter enchentes. Mas a técnica, além de não evitar totalmente as inundações, prejudicava o ecossistema do rio.

Hoje em dia os engenheiros preferem usar outros mecanismos, como aumentar a superfície do leito do rio e colocar plantas que ajudem a diminuir a velocidade da água nas enxurradas.

O Lea foi radicalmente mudado, incorporando esses novos conceitos. As margens agora viraram terras alagadas com plantas, que permitem o desenvolvimento de uma fauna, com insetos, aves, sapos e pequenos mamíferos.

Uma parede com diversos ninhos de pássaros guarda-rios foi instalada. Também foi feita uma cova artificial para lontras - apesar de nenhuma lontra ter aparecido no local ainda.

A Agência Ambiental estima que 4 mil casas não estão mais ameaçadas de inundações depois das reformas.

Sem turbina

O legado das Olimpíadas aqui são mais de cem hectares de um novo parque - o maior novo parque urbano em qualquer país no último século.

Outro aspecto importante é que o Lea e o local dos Jogos formarão um "corredor de vida selvagem", reconectando ambientes e faunas que estavam separadas pelo concreto há gerações.

Mas e as "credenciais verdes" dos Jogos, como ficam?

Os planos de fazer com que os Jogos fossem de "baixas emissões de carbono" levaram um duro golpe há dois anos, quando os organizadores abandonaram a ideia de instalar uma turbina de vento.

Isso significa que apenas 11% da energia consumida - e não mais 20% - será gerada localmente, com ajuda de painéis solares e de dois geradores de pequeno porte.

Os geradores utilizarão gás - que não é renovável - ou biomassa, e poderão gerar água quente e eletricidade ao mesmo tempo. A abordagem conhecida como "cogeração" é considerada eficiente.

"Nós havíamos colocado esperanças demais em uma turbina de vento para fornecer de 7% a 8% da energia", disse John Armitt, diretor da ODA.

"Mas, por motivos comerciais, de segurança e por uma série de outros motivos, simplesmente não era viável colocar uma turbina (no local). Minha opinião é que não veremos muitas turbinas em ambientes muito urbanos, porque há muitas barreiras ao seu redor."

O dinheiro que seria usado na turbina de vento será reinvestido para isolamento térmico de casas da comunidade local. Isso, segundo os organizadores, contribuirá mais para a redução das emissões.

Polêmica

Outro aspecto "verde" do local olímpico é a água. A água que sobrar da piscina, que for reciclada e que vier da chuva será usada para os banheiros, reduzindo o consumo de água potável.

A construção dos prédios também foi feita com materiais que exigem menos energia para sua fabricação.

Originalmente, o teto do Velódromo necessitaria de 2 mil toneladas de aço, mas os engenheiros resolveram usar uma estrutura de cabos que reduziria essa demanda para cem toneladas de aço.

Um órgão especial, que monitora a sustentabilidade dos Jogos Olímpicos, fiscalizou a madeira usada nas construções. Toda a madeira veio de estoques sustentáveis.

A importância dada ao meio ambiente por alguns organizadores ficou ilustrada há poucas semanas, quando uma das comissárias renunciou ao seu cargo em protesto contra uma empresa.

A Dow Chemicals estava sendo sondada para fornecer um tecido usado na decoração do estádio olímpico. A companhia é dona da fábrica Bhopal, na Índia, onde um vazamento de gás venenoso matou milhares de pessoas em 1984 e provocou danos à saúde de milhares.

A comissária Meredith Alexander argumentava que as Olimpíadas não deveriam fechar um contrato com a Dow Chemicals, apesar de a companhia nem ser a proprietária da Bhopal na época do incidente. A comissão à qual Meredith pertencia estava incumbida apenas de avaliar se o material era sustentável.

Apesar de alguns percalços com turbinas e tecidos, a maioria dos planos de sustentabilidade parece estar funcionando.

Mas isso já demonstra o limite para o quão ambiental tudo pode ser. Não há como evitar, por exemplo, as emissões geradas no transporte - inclusive aéreo - de dezenas de milhares atletas, funcionários e espectadores.

Nesse ponto, nenhuma olimpíada pode ser totalmente ecológica. Mas Londres parece estar bem posicionada na disputa por uma "medalha verde". BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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