Londres 2012: Sindicato dos músicos critica comitê por pedir trabalho não remunerado

Convite por organizadores do evento para que músicos profissionais toquem de graça no Parque Olímpico enfurece Musicians Union.

Mônica Vasconcelos, BBC

25 de julho de 2012 | 11h06

O sindicato dos músicos da Grã-Bretanha, a Musicians Union (MU), está pedindo a músicos britânicos que se recusem a tocar de graça durante os Jogos Olímpicos de Londres.

A medida é uma resposta a denúncias, por músicos, de que os organizadores dos jogos - o London Organising Committee of the Olympic and Paralympic Games, ou Locog - teriam contactado profissionais convidando-os a tocar no Parque Olímpico sem remuneração.

No ano passado, representantes da MU e do TUC - a federação nacional de sindicatos britânicos - fizeram um acordo com o comitê organizador dos jogos segundo o qual trabalhadores profissionais contratados para o evento receberiam salários.

Pop stars e músicos amadores, trabalhando como voluntários, estariam excluídos, podendo oferecer seus serviços gratuitamente. Segundo a MU, no entanto, o acordo está sendo desrespeitado.

A MU contactou o Locog, o prefeito de Londres e o ministro da Cultura da Grã-Bretanha para protestar.

"O Locog nos disse repetidas vezes que todos os músicos profissionais seriam pagos, mas encontramos exemplo após exemplo de que eles estão quebrando sua palavra", diz o site da MU.

"Se querem que músicos entretenham milhares de pessoas, devem pagar por isso. Ganhar um salário decente como músico profissional hoje em dia já é difícil o suficiente. De onde é que vem essa ideia, de que os músicos deveriam ficar felizes em trabalhar de graça? Quem ficaria?"

Em resposta, o comitê disse à BBC que não tem conhecimento de pedidos oficiais a músicos, pelo Locog, para que se apresentem gratuitamente.

"Temos os e-mails como prova", rebate o site da MU. "E eles estão vindo de funcionários do Locog".

A BBC Brasil também obteve uma cópia de um dos e-mails.

Nova Estratégia

O representante da MU Horace Trubridge disse à BBC Brasil que o último desdobramento no caso - que começou a ser noticiado pela imprensa britânica em junho - aconteceu na semana passada.

"A nova tentativa desesperada do Locog de conseguir música de graça durante os jogos foi pedir a buskers (músicos de rua) que se apresentem no Parque Olímpico", disse. "Eu telefonei ao Locog para saber se os músicos terão permissão de recolher doações do público e a resposta foi não".

"Nosso argumento é, você não pede a um encanador que venha trocar seu encanamento de graça, mesmo que ele goste do que faz", disse Trubridge. "E no caso dos músicos de rua, muitos deles estudaram em colégios prestigiosos e vão às ruas mostrar seu talento em troca de doações. Isso não quer dizer que sejam amadores".

Plateia Internacional

O trombonista Steve Haynes foi um dos músicos abordados pelo Locog.

Ele toca regularmente em um teatro do West End londrino e também lidera seu quinteto, o Barbican Brass.

"Quando soube que os Jogos Olímpicos viriam para Londres, fiz questão de preparar um repertório adequado a um evento como esse".

Quando o convite para tocar chegou, no entanto, não havia remuneração.

"No e-mail, eles me convidaram a 'exibir meu talento para o mundo', porém sem pagamento".

Briga Antiga

Estrelas internacionais como Paul McCartney, Jay Z, Tom Jones e as bandas Blur e Duran Duran vão fazer shows gigantescos durante os jogos - segundo relatos, sem qualquer remuneração.

Tanto Haynes quanto Trubridge argumentam que grandes nomes, acostumados a recebem cachês milionários, podem se dar ao luxo de tocar de graça.

Mas dizem que é importante que o público entenda que a grande maioria dos músicos tem de trabalhar duro para pagar as contas e sustentar a família.

Trubridge reconhece que o problema é antigo e que os próprios músicos têm uma parcela de responsabilidade nisso.

"Infelizmente, alguns músicos aceitam trabalhar de graça e isso nos coloca nessa posição tão indigna". BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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