Londres critica polícia e pede novo inquérito sobre Jean Charles

Relatório da Comissão responsável pela análise do caso aponta falhas 'muito sérias' e obstrução nas investigações

Andrea Wellbaum, BBC

08 de novembro de 2007 | 10h15

Um aguardado relatório da Comissão Independente de Queixas contra a Polícia Britânica (IPCC, na sigla em inglês), divulgado nesta quinta-feira, 8, defende que seja retomado o inquérito para esclarecer a morte do brasileiro Jean Charles de Menezes, aponta falhas "muito graves" na operação e afirma que o comissário da Scotland Yard, Ian Blair, tentou obstruir a investigação após o incidente.  Segundo o documento divulgado nesta quinta, um inquérito sobre a morte de Jean Charles pode fornecer "uma oportunidade importante para a família de Menezes para ter suas próprias perguntas respondidas sobre as circunstâncias de sua morte".  O relatório também afirma que o julgamento em que polícia londrina foi condenada na semana passada "não marca o fim do processo legal sobre o incidente". Neste julgamento, a polícia foi condenada a pagar multa de 175 mil libras (cerca de R$ 634 mil) e mais 385 mil libras (cerca de R$ 1,394 milhão) pelos custos do processo por violar regras para garantir a segurança pública durante a operação em que o brasileiro foi morto.  A IPCC afirma ainda que, com inquérito, "no tempo apropriado", pode ser definido se alguma alta autoridade da polícia "deve enfrentar um processo disciplinar por causa do caso". Até agora, nenhum dos policiais envolvidos no caso, em nenhum escalão, foi apontado ou condenado como individualmente responsável pelas falhas. O inquérito defendido pela IPCC e a família de Jean Charles foi aberto automaticamente dias após a morte do eletricista, como ocorre em todos os casos de morte violenta, mas acabou sendo suspenso para aguardar o resultado do julgamento da polícia metropolitana no mês passado. Segundo advogados da família, ele deve ser retomado em dezembro.  'Erros sérios' O documento divulgado nesta quinta foi finalizado seis meses após a morte de Jean Charles, que aconteceu em 22 de julho de 2005. Ele não foi divulgado antes porque estava sendo usado como base no julgamento encerrado na semana passada.  Por causa disso, os autores do documento ressaltam que boa parte do seu conteúdo acabou sendo conhecido ao longo do processo. No entanto, o documento traz novos detalhes sobre a operação e sobre como a polícia agiu após o incidente.  Nick Hardwick, diretor da IPCC, divulgou um comunicado para a imprensa junto com o relatório no qual afirma que "erros muito graves foram cometidos (durante a operação), erros que poderiam e deveriam ter sido evitados". Porém, ele frisou que é preciso "tomar o máximo de cuidado antes de apontar algum culpado".  No documento, a comissão independente aponta 16 preocupações e erros cometidos pela polícia durante e depois da operação. Entre as principais críticas estão falhas gerais de comunicação durante toda a operação, falta de clareza nas ordens dadas aos policiais envolvidos e a diferença de tratamento dado a testemunhas policiais e civis.  De acordo com a investigação, os policiais puderam conversar e definir antecipadamente a descrição que fariam sobre o incidente. Eles apenas fizeram seus relatórios oficiais sobre o caso 36 horas após o ocorrido e em vários casos chegaram a usar inclusive expressões idênticas para descrever partes das circunstâncias. O relatório questiona o contraste entre isso e o fato de que as testemunhas civis deram depoimentos logo após o ocorrido, sem poder discutir entre elas e "quando ainda estavam traumatizadas pelo que viram". A comissão afirma que permitir que policiais conversem sobre seus depoimentos é uma prática corrente, mas que isso faz com que os testemunhos tenham menor credibilidade. A IPCC sugere que o procedimento seja mudado e que os policias não possam discutir seus depoimentos antes de fazê-los.  Outro ponto de destaque no documento é a parte que trata da atuação do comissário Ian Blair, chefe da Polícia Metropolitana de Londres, após a operação.  Os autores do documento afirmam que ele tentou impedir a realização de uma investigação independente. O incidente só foi comunicado oficialmente na tarde de segunda feira dia 25, três dias depois. Até esse momento, a comissão não pôde iniciar seus trabalhos. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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