Lua de Saturno enfrenta tempestades de metano

Imagens de Titã, maior lua do planeta Saturno, revelam nuvens e leitos secos de rios. Isso sugere que Titã é o único outro exemplo em todo o sistema solar - além da Terra - onde a superfície é esculpida pelo fluxo de líquido. Mas, que líquido? Titã é frio demais para ter água. Na edição desta semana da revista Nature, os cientistas Ricardo Hueso e Agustín Sánchez Lavega oferecem uma explicação: tempestades gigantescas de metano. O satélite de Saturno seria lar de um "ciclo do metano", como o ciclo da água da Terra.De acordo com os dois pesquisadores, da Universidade do País Basco, enormes nuvens de vapor de metano dão origem a tempestades na superfície de Titã, e o hidrocarbono desempenha, ali, um papel semelhante ao da água na Terra. De acordo com os cálculos dos cientistas, essas tempestades, que podem atingir uma altitude de 35 km, produzem nuvens densas e uma precipitação intensa. A precipitação cortaria rios e canais pela superfície.A hipótese se baseia em observações feitas pela sonda Cassini, que recolhe dados do sistema de Saturno desde 2004, e por telescópios localizados na Terra. Ela é reforçada pelo anúncio feito, no início desta semana, por outra equipe de cientistas, que disse ter encontrado, em imagens da Cassini, a primeira grande evidência da presença de lagos gigantescos em Titã. O aglomerado de lagos foi avistado perto do pólo Norte da lua durante um sobrevôo realizado pela sonda, que está a 950 km de Titã.Os pesquisadores contaram pelo menos uma dúzia de lagos, com tamanhos variando de 10 km a 100 km de diâmetro. Alguns, que aparecem como manchas escuras nas imagens de radar, são conectados por canais, enquanto que outros são alimentados por tributários.Além disso, imagens de radar feitas anteriormente pela sonda Cassini de uma região de Titã, batizada de Xanadu, mostram características geológicas semelhantes às da Terra. Xanadu tem tamanho semelhante ao da Austrália e, segundo a interpretação das imagens feitas por cientistas da Nasa, existe ali um terreno cortado por rios, colinas e vales. Os rios correm para áreas mais escuras, que podem ser lagos.Titã é a segunda maior lua do sistema solar, com 5.150 km de diâmetro. É o único satélite do sistema solar com uma atmosfera densa de nitrogênio, semelhante à da Terra. A atmosfera é coberta por nuvens densas de hidrocarbonos, que bloqueiam a visão da superfície, onde a temperatura é de 180º C negativos. Em 2005, a sonda Cassini lançou sobre Titã a Huygens, um veículo que mergulhou na atmosfera da lua, recolhendo dados e produzindo imagens.Em outro artigo publicado no número desta semana da Nature, uma equipe de cientistas chefiada pelo pesquisador Tetsuya Tokano, da Universidade de Colônia, na Alemanha, usa dados da Huygens para mostrar que Titã possui duas camadas de nuvem: uma mais alta, de gelo de metano, e uma inferior, que mistura metano e nitrogênio. A camada inferior produz uma garoa que umedece a superfície molda a geologia, embora seja delicada demais para criar os grandes canais registrados pela Cassini. A idéia de que Titã tivesse massas de metano líquido na superfície não é nova: ela surgiu depois que a sonda Voyager 1 fez leituras da lua, em 1980. Na época, chegou-se a falar em "mares" de hidrocarbono, e um grupo americano de entusiastas da exploração espacial chegou a criar uma camiseta com a estampa de uma onda de metano e o slogan "Surf Titan".

Agencia Estado,

27 de julho de 2006 | 14h31

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