Lucas Mendes: Infeliz aniversário.

Os democratas cantaram em homenagem a Obama para marcar um ano da morte de Bin Laden.

Lucas Mendes, BBC

03 Maio 2012 | 06h15

Quem canta parabéns prá você em aniversário de morte? Os democratas cantaram e Obama foi vaiado pelos inimigos de sempre e até por amigos quando colocou no ar um comercial que duvida da capacidade de decisão de Mitt Romney.

As balas de Obama: Mitt já tinha comentado que não valia a pena gastar bilhões à procura de um homem e que um ataque sem permissão do governo do Paquistão poderia complicar as relações já difíceis com o país. Mitt engoliu as duas balas e disse que Obama merece parabéns pela decisão que ele também teria tomado.

O aniversário passou sem mensagens de Obama no fundo do mar, nem do Al Qaeda mas temos um bombardeio de entrevistas, livros e reportagens sobre o que aconteceu antes, durante e depois daquela noite.

Peter Berger, um especialista em Segurança Nacional para a CNN foi um dos primeiros e pouquíssimos americanos que entrevistaram Osama Bin Laden e seu terceiro livro, Manhunt, conta sobre os americanos que chegaram ao mensageiro Kuwaitiano que morava com Bin Laden no casarão em Abottabad. Durante meses a CIA observou o vai e vem da casa, mas nunca tinha visto Osama.

Sem nenhuma prova concreta, a CIA convocou um time de observadores com a missão de provar que Osama NÃO estava na casa. O time ficou dividido: os agentes pessimistas achavam que as chances dele estar na casa eram de 40%. Para os mais otimistas as chances eram de 60%.

Os principais assessores do presidente também estavam divididos: O chefe da CIA, Leon Panetta era a favor de um ataque com forças especiais; o chefe da Segurança Nacional, Robert Gates preferia um ataque de mísseis; o vice-presidente Joe Biden queria mais tempo de observação, preocupado com a reação do Paquistão.

Nestas condições de incerteza, Obama colhe "kudos" pela ordem de atacar com as forças especiais da marinha, os Navy Seals. Um erro poderia ter um saldo politicamente comprometedor.

Com a morte de Osama confirmada, o primeiro telefonema do presidente Obama foi para George W. Bush. Só meia duzia de assessores souberam com antecedência sobre a operação. Nem Michele Obama sabia. Estas histórias estão numa série da rede NBC, a primeira que teve acesso à Sala de Controle da Casa Branca.

De todos personagens em destaque neste aniversário, o mais provocante é Jose Rodriguez, chefe das operações clandestinas com 31 anos de CIA.

Antes dirigia as operações na América Latina e não tinha nenhuma experiência em contra-terrorismo ou Oriente Médio, mas a reputação dele era de inquisidor implacável.

O importante, a qualquer custo, era evitar um novo ataque. Falava-se em atentados com armas químicas, biológicas e nucleares. O governo Bush deu poderes plenos para interrogar, inclusive por escrito, ao agente Rodriguez que convidou o FBI para assistir e até participar do processo.

Dezenas de suspeitos caíram nas malhas da CIA, entre eles o palestino Abu Zubaydah, preso no Paquistão, muito ferido, depois de um tiroteio. Era suspeito de atentados com bombas e de pertencer ao núcleo mais íntimo de Osama bin Laden.

A CIA foi buscá-lo com um dos melhores cirugiões americanos e antes mesmo de estar recuperado começaram os interrogatórios com métodos que muitos consideram crimes de guerra: semi-afogamentos na cama inclinada, nu, durante dias, num minúsculo quarto escuro com um inseto dentro, dias sem dormir. As fraldas eram parte da rotina de humilhação, tapa na cara também.

Jose Rodrigues conta que Zubaydah resistiu três semanas. Quando abiru o bico foi uma fonte preciosa de informações.

Pela versão do FBI, tudo que ele contou a CIA, sob tortura, já tinha contado aos agentes do Bureau na base dos bons tratos.

Kalid Sheik Mohamed, mais conhecido como KSM, o arquiteto dos ataques às torres, foi um campeão de resistência. Bateu recordes de tolerância de afogamento, 83, e ficou sete dias e meio sem dormir.

Apesar de todos castigos ele mentiu para os torturadores que o famoso mensageiro Kuwaitiano, que finalmente levou os americanos ao esconderijo de Osama, tinha se aposentado.

Uma investigação da própria CIA contraria a maior parte das histórias de José Rodriguez mas tudo que ele fez, inclusive a destruição de 93 fitas de interrogatórios, foi sacramentado pelos chefes de todos departamentos, inclusive da Casa Branca.

Não pode ser processado por nada.

Rodriguez está no circuito de entrevistas e vai percorrer o país com suas histórias que já são conhecidas. O extraordinário é ver um torturador absolutamente seguro, afirmar sem uma sombra de dúvida, que estamos vivos graças a ele.

Quando, durante a entrevista, a experiente e firme jornalista Leslie Stahl diz a Rodriguez: "Nós americanos não fazemos estas coisas", se referindo à tortura, ele responde com não menos firmeza e experiência: "Fazemos sim."

Na interpretação de Rodriguez, a diferença entre Bush e Obama é clara: Bush prendia e interrogava com métodos brutais. Obama proibiu os métodos mas prende. Manda matar com os aviões não tripulados. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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