Lucas Mendes: Meu Mailer

Encontros com Norman Mailer em busca de uma entrevista exclusiva.

BBC Brasil, BBC

15 de novembro de 2007 | 06h44

Nosso primeiro encontro foi nas ruas do Brooklyn, o bairro onde ele cresceu (nasceu em Nova Jersey) e descreveu como sendo o "ambiente judeu mais seguro nos Estados Unidos". Ele estava em campanha para a prefeitura de Nova York, e eu na cobertura para a Fatos e Fotos.O candidato a vice era o jornalista sempre ressacado Jimmy Breslin e sem o menor interesse em conversar com os eleitores. Era verão quente. Breslin tomava água, cuspia, enxugava o suor do rosto e gritava: "Norman! Norman! Fuck it! Você vai conversar com todo mundo que encontra na rua?"Mailer conversava. Até para mim, que não era eleitor, ele explicou o plano de transformar Nova York no 51º Estado da União. Seria a 12ª maior economia do mundo. Outro plano era autonomia para os bairros e maior poder aos moradores. Cada quarteirão teria sua própria "câmara" de vereadores. Ele faria um referendo no Harlem e os negros poderiam optar se queriam ou não continuar fazendo parte da cidade. Os carros particulares seriam banidos de Nova York. "NORMAN! Vamos embora. Há uma hora não saimos do lugar", gritava Breslin, entre as cuspidas. Aquilo não podia dar certo. Só depois de um mês de campanha descobriu, num bar, que a candidatura era a sério. Na primária do partido, os democratas tinham cinco candidatos. Mailer ficou em quarto, com 41 mil votos.Pouco tempo depois ele me recebeu com um grupo de uns 12 jornalistas estrangeiros no Ninho do Corvo, como ele se referia à casa dele em Brooklyn Heights, com uma magnífica vista de Manhattan. O grupo era grande, a conversa desgalhou e nada de interessante ficou registrado daquela noite. Mailer estava sóbrio e bem-educado. Parecia mais paciente com estrangeiros. Decepcionados e liderados por um escritor e jornalista australiano, John Larkin, eu e o jornalista inglês Jon Pepper batemos na porta da casa do escritor à noite, sem aviso e com uma garrafa de vinho inferior. Fomos gentilmente enxotados, e não foi por causa do vinho barato - Mailer preferia os destilados -, com a promessa de que poderiamos procurá-lo no futuro para entrevistas exclusivas.Fui ao aniversário dele de 50 anos no Four Seasons, um dos restaurantes mais caros de Nova York. Entrei como jornalista convidado, usando nossas conexões anteriores. Se não me engano, os convites eram pagos - e caros. O dinheiro iria ajudar Mailer a pagar as várias pensões das ex-mulheres - teve seis e nove filhos. Uma zona de festa. Ele estava com um grupo de amigos mais íntimos e alguns mais distantes numa sala reservada, longe da malta. Quando entrei, ele trocava violentas cabeçadas com todos que chegavam perto, íntimos ou não. Ou trocavam socos e faziam quedas-de-braço. Não cheguei perto da fera nem para dar os parabéns.Tivemos um boa conversa em Houston antes do lançamento da Apollo 11 para a primeira viagem à lua. Ele estava sozinho, entrando no hotel mastigando alguma coisa. Perguntei o que ele andava fazendo."Ruminando", respondeu, mostrando uns amendoins. Ele estava escrevendo um artigo/livro para a Life e se queixou das dificuldades de tomar o pulso do centro espacial. Astronautas, suas mulheres, engenheiros, executivos, todos contavam as mesmas histórias, nenhuma drama, ambientes mais anti-sépticos do que hospitais. Falei sobre nossa entrevista e ele me pediu para escrever um bilhete para lembrá-lo. Mandei e ele respondeu que se eu esperasse 10 anos ele me daria uma exclusiva. Pura canalhice. Esperei os 10 anos e mandei uma carta com o bilhete dele estipulando a condição. "Norman Mailer tem mente criminosa. Você não sabia disto?" Dupla canalhice. Nunca me deu a exclusiva e além disto falou com metade dos jornalistas brasileiros em Nova York, inclusive o Francis, que fez ótima entrevista. Apesar disto continua sendo meu escritor americano favorito e durante muito tempo Advertisements for Myself foi meu livro de cabeceira. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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