Lucas Mendes: Paraíso Brega

Do planeta Times Square ao planeta Coney Island são menos de trinta quilômetros de metrô, uma viagem de quase uma hora. Vale a pena mesmo com o parque fechado para o verão. Há outras atrações.

BBC Brasil, BBC

13 de setembro de 2007 | 09h55

Do planeta Times Square ao planeta Coney Island são menos de trinta quilômetros de metrô, uma viagem de quase uma hora. Vale a pena mesmo com o parque fechado para o verão. Há outras atrações.Você vai levar um susto com a granfinagem da nova estação de 240 milhões de dólares do metrô. Só isto justificaria a viagem, mas o maior impacto para quem nunca foi é o tamanho da praia de Coney Island.Nossas maravilhas de Copacabana, Ipanema e Leblon são miniaturas, tanto na largura como na extensão. Nas praias gringas, faltam o calor, a areia fina, a cor do mar e a paisagem do Rio. De resto são fantásticas. O belo calçadão de Copacabana é modesto comparado com o de Coney Island, todo construído com madeira de lei brasileira, agora em processo de decadência. A fama de Coney Island foi enriquecida com as atrações do gigantesco parque de diversões. A primeira montanha russa, a maior roda gigante do mundo, o salto de pára-quedas, os bares e os restaurantes populares. Lá nasceu o cachorro quente, Nathan's, ainda forte, rijo, venenoso, irresistível.Para várias gerações de novaiorquinos mais pobres, desde o século 19 Coney Island tem sido a maior escapatória, o paraíso brega com emoções genuínas e baratas. Charles Lindbergh disse que a experiência nos oitocentos metros da montanha russa foram muito mais emocionantes do que seu vôo solo pioneiro que atravessou o Atlântico.Outras experiências foram únicas, como a explosão de uma falsa bomba atômica no calor da Guerra Fria, em 62, detonada pela força aérea americana. A intenção era dar uma noção dos efeitos do som e da formação da nuvem de cogumelo. O público deu nota 10.Freqüentadores da praia e do parque (9 milhões este ano) e residentes do bairro estão preocupados com o futuro de Coney Island e esta não é a primeira ameaça. Na década de 30, Robert Moses, o construtor/destruidor mor de Nova York queria simplesmente arrasar o parque. Na década de 60, logo depois do assassinato de Luther King, dez dias de motins e incêndios reduziram a freqüencia do parque e, na quase falência de Nova York na década de 70, Coney Island esteve mais pra lá do que pra cá. Agora este mundo do faz de conta esta ameaçado pelos bilhões de uma imobiliária disposta a transformar Coney Island numa mini Las Vegas, uma promoção do baixo kitsch pro alto kitsch. Condomínios milionários, um hotel de luxo com 500 quartos, restaurantes finos, teatros e cinemas. A velha guarda aposta contra.Por precaução, algumas atrações foram tombadas pela cidade. Quem venham concreto, aço e vidros novos, mas pelo menos parte do ferro velho agora vai ser eterno. Vá antes que acabe este paraíso brega movido a montanha russa e a nostalgia. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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