Lucas Mendes: Xuxa, Luzes e Sombras

Silêncio e afastamento são dois dos vários sintomas de vítimas de abusos.

Lucas Mendes, BBC

31 Maio 2012 | 09h09

Bobo é quem acha que a Xuxa é boba. Nunca fomos íntimos, mas estivemos juntos algumas vezes em Nova York.

Fernando Sabino dizia que todos temos um menino dentro de nós. A menina dentro da Xuxa é grande e frágil, mas sabe ser adulta, contundente e confiável, como no depoimento dela sobre abusos sexuais no Fantástico.

Ela não contou os detalhes sórdidos que a massa queria ouvir. Não contou porque não quis, não se lembra ou não quer se lembrar. Aconteceram até os 13 anos e ela vai fazer 50.

Um estudo americano da década de 90 com mulheres com histórico hospitalar de abusos mostra que 38% delas não se lembravam ou não queriam se lembrar, 17 anos depois, que tinha sido vítimas de abusos.

A definição do que constitui abuso tem variações nos Estados Unidos. Dependendo do Estado, entre 15% e 25% das meninas sofreram algum tipo de abuso, a maioria em família.

Uma das confissões mais famosas foi da popular e milionária apresentadora Oprah Winfrey, em 1986. Contou no programa dela, na televisão, que tinha sido estuprada aos 9 anos por um parente e que o abuso continuou por muito tempo.

Ela causou constrangimento quando disse que se o abusador for habilidoso a abusada pode sentir prazer, como no caso dela. Só mais tarde sentiu o impacto psicológico no abuso.

A imprensa sensacionalista não infernizou os parentes de Oprah como estariam fazendo no caso da Xuxa. Pelo contrário.

Uma controvertida biografia de Kitty Kelly diz que Oprah fabricou o abuso e sua miséria na infância - "eu era tão pobre que meus bichos de estimação eram duas baratas" - para subir a audiência do programa. Subiu. Oprah mais tarde fez uma bem sucedida série com depoimentos de abusadores e abusados.

A poetisa Maya Angelou revelou na sua biografia que foi estuprada aos 8 anos por um parente e depois passou muito tempo muda.

Silêncio e afastamento são dois dos vários sintomas das abusadas. O estudo que mostra o esquecimento das vítimas gerou uma mini "indústria" de filhas, incentivadas por advogados e psicólogos, que acusavam pais, mas não se lembravam como e quando tinham sido os abusos.

Sessões de hipnotismo "reconstruíam" os abusos e um conhecido médico da Califórnia quase foi arruinado pelas denúncias de uma filha. Processou de volta, ganhou, limpou o nome.

Até a década de 90, os juristas e educadores americanos discutiam se abusos sexuais deveriam ir para tribunais civis ou criminais, especialmente nos casos que envolviam parentes, mas, em 1994, o estupro seguido de homicídio de uma menina de 8 anos, Megan Kegan, gerou uma explosão de leis estaduais rígidas conhecidas como Leis de Megan.

Pelas leis, depois de cumprir a sentença, o abusador precisa informar a polícia onde mora. O crime e o endereço vão para a internet. Só na Califórnia, sao 65 mil abusadores na lista. Custa caro manter estas leis e, apesar do preço e do controle, ainda não diminuíram o número de abusos sexuais de crianças.

Mesmo se você não se interessa pelo assunto de abuso sexual de crianças, não perca o filme Polisse, que ganhou o prêmio do júri no festival de Cannes de 2011. Estreou aqui esta semana e chegará ao Brasil.

O filme é baseado num documentário sobre uma divisão da polícia parisiense que cuida de todos tipos de abusos de crianças. Quase todos os casos envolvem pedofilia.

São sete policiais, quatro mulheres e três homens, que lidam com dezenas de pais e filhos, abusadores e abusados, com suas crises no trabalho e em casa. Difícil chegar à noite e conversar, no jantar, com a mulher ou o marido sobre a mãe que acalma seus bebês com masturbação e sexo oral. Ou o pai que transa com a mãe pensando na filha e acha normal.

Um confronto entre uma policial árabe e um pai muçulmano rígido que obriga a filha menor a se casar com um noivo escolhido por ele resume em poucos minutos a crise entre muçulmanos moderados e radicais.

Os conflitos étnicos, morais e burocráticos estão comprimidos em duas horas que em poucos minutos vão e voltam do trágico ao cômico, sem heróis e uma energia que ilumina o lado sombrio não só da cidade das luzes como das cidades das Xuxas do mundo inteiro. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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