Lucro do BB amplia cisma entre governo e banco privado

O robusto lucro do Banco do Brasil no segundo trimestre aprofundou nesta quinta-feira o embate entre bancos privados e o governo quanto ao papel do setor financeiro diante dos efeitos de uma crise global que empurrou o mundo para a recessão.

ALUÍSIO ALVES, REUTERS

13 Agosto 2009 | 16h56

Longe do tom melancólico que marcou a divulgação dos resultados de seus grandes concorrentes privados, o BB reportou que seu lucro líquido deu um salto de 42,8 por cento em relação ao mesmo período de 2008, para 2,348 bilhões de reais.

O número refletiu sobretudo do incremento de 32,8 por cento na carteira de crédito em 12 meses, para 252,5 bilhões de reais --bem acima da expansão de 19,7 por cento do sistema financeiro.

Foi a primeira mostra mensurável da pressão do governo federal de usar os bancos públicos como instrumento para baixar a taxa de juros do sistema, iniciativa apontada como detonadora da tumultuada troca de comando do BB, em abril.

De quebra, o índice de inadimplência do banco, embora tenha crescido de 2,5 para 3,3 por cento em 12 meses, ficou bem abaixo da média de seus principais rivais. O índice do Bradesco, por exemplo, ficou em 4,6 por cento.

Tais números deram munição ao discurso do próprio BB e do governo, ao defenderem a postura anticíclica do banco estatal, reduzindo taxas, estendendo prazos e elevando a oferta de crédito num momento de economia em desaceleração.

"Adotamos a estratégia correta", afirmou o presidente do BB, Aldemir Bendine, a jornalistas nesta quinta-feira, ao comentar os resultados do trimestre.

Representantes do governo foram mais longe. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, convocou uma coletiva de imprensa para comentar o assunto e afirmou que, se os bancos privados não seguirem o exemplo das instituições públicas, "vão comer poeira". E o do Planejamento, Paulo Bernardo, disse que o setor privado está se queixando da concorrência dos bancos públicos.

Na terça-feira, o presidente do Itaú Unibanco, Roberto Setubal, havia dito em palestra a empresários que algumas taxas de juros praticadas pelos bancos públicos são "insustentáveis".

A Febraban, federação que representa os bancos, informou que não comentaria as declarações de Mantega. Procurado, o Itaú não tinha representantes disponíveis para comentar o assunto até a publicação desta reportagem.

BRIGA PELA PONTA

O embate opondo a postura conservadora dos bancos privados e a ousadia anticíclica do governo com as instituições estatais tem como pando de fundo um momento de acirradíssima competição pelas primeiras posições no ranking bancário por ativos.

Nesta quinta-feira, ao anunciar os resultados trimestrais, o BB comunicou também que seus ativos totais chegaram aos 598,8 bilhões de reais, número que lhe devolveu a liderança no país, posição que tinha sido perdida para o Itaú Unibanco, após emergir de uma fusão em novembro do ano passado.

"O Banco do Brasil retomou o posto que lhe é de direito", disse Bendine.

Alheios à guerra de palavras entre governo e bancos privados, analistas receberam os resultados do BB com elogios.

"A qualidade dos ativos (do BB) foi mais resiliente que a apresentada por seus concorrentes", disse em relatório o Bank of América Merrill Lynch, ao elevar o preço-alvo das ações do banco estatal.

"O resultado do BB veio acima das expectativas", fez coro a corretora Ativa, também em relatório.

Na bolsa paulista, a ação do BB subia 2,58 por cento, a 25,48 reais, às 16h41, no momento em que o Ibovespa avançava 0,53 por cento.

(Reportagem adicional de Isabel Versiani, em Brasília, e Denise Luna, na Costa do Sauípe)

Mais conteúdo sobre:
BANCOSBBPOLITICA*

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.