Lula apostando forte

Artigo publicado originalmente no Estadão Noite

Aldo Fornazieri*, O Estado de S. Paulo

15 Maio 2015 | 19h52

Quem acompanha o noticiário deve ter percebido uma presença maior de Lula nos ambientes políticos públicos. Após as eleições de 2014 e a partir do recrudescimento do escândalo da Petrobrás, Lula havia se retraído. A rigor, existem quatro determinações que movem Lula cada vez mais para o centro do cenário político.

A primeira diz respeito a 2018. Com o enfraquecimento político de Dilma, as forças que se agregam em torno do governo tendem a uma crescente dispersão já que a presidente não consegue oferecer uma perspectiva de poder futuro. A fraqueza do governo exerce um movimento centrífugo e dispersivo junto às forças do entorno. A maior desenvoltura de Lula tem em vista provocar um movimento centrípeto, de rearticulação e reorganização de forças partidárias e sociais em torno de uma perspectiva de poder que teria ele próprio como ponto central de agregação. 

Mas, ao mesmo tempo, Lula não pode assumir que é candidato. Se assumisse essa condição, se veria em meio a um fogo cerrado muito mais forte do que aquele que já o atinge. Nestas circunstâncias, o melhor a fazer é o jogo da ambiguidade: não afirma que é candidato, mas também não desmente e age como se fosse. Com isto, mantém o cacife para jogar e mantém poder de interlocução junto a vários atores políticos, econômicos e sociais. 

A segunda determinação se relaciona com a fraqueza e a rejeição do PT. O PT vem se mostrando incapaz de reagir a sua crise, o que o faz, inclusive, perder militância e adesão de setores sociais. Ao retomar o ativismo político, Lula pontifica como um substituto do partido, até porque ele sofreu, até agora, um desgaste menor do que o PT. Busca, assim, evitar uma maior dispersão e deserção de forças próprias.

A terceira e a quarta determinações são duas faces de uma mesma moeda: por um lado, Lula critica aspectos do ajuste fiscal, colocando-se ao lado dos reclamos das bases sindicais do PT e da CUT; mas, por outro, defende incisivamente Dilma, sinalizando que se a oposição radicalizar, ele e as forças que o seguem também radicalizarão em defesa do mandato presidencial. A ambiguidade dessas duas determinações constitui a parte mais difícil e perigosa do jogo. Explique-se: para Dilma recuperar a credibilidade e consolidar seu segundo mandato, depende do êxito do ajuste fiscal. Mas o ajuste fiscal provoca efeitos erosivos sobre a base social do governo e do PT. Qualquer desequilíbrio nesse jogo ambíguo poderá ser fatal para o governo ou para o PT e sua base social. Ou para ambos.

* ALDO FORNAZIERI É PROFESSOR DA ESCOLA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA DE SÃO PAULO

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