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Lula faz discurso de campanha em evento em Brasília

Ex-presidente petista pediu que os militantes se preparem para a 'luta' e sugere que ele pode 'tirar o País da lama'

Vera Rosa e Julia Lindner, Brasília

12 de janeiro de 2017 | 21h07

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu nesta quinta-feira, 12, mais um passo em direção ao lançamento de sua candidatura ao Palácio do Planalto. Ao participar de um seminário no 33.º Congresso da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), em Brasília, Lula pediu aos militantes que se preparem para a "luta", ainda neste ano, e acabou se chamando de "candidato".

"Quem é que vai tirar o País da lama em que ele se encontra?", perguntou o ex-presidente. A plateia, em uníssono, respondeu: "Lula, Lula". Quando tentava ler alguns dados sobre educação no País, ele deixou cair o óculos. "O candidato não consegue nem segurar os óculos", ironizou.

Com críticas ao presidente Michel Temer, classificado por ele de "golpista", o petista indicou novamente que pretende entrar na disputa. "Se cuidem porque, se eu voltar a ser candidato a presidente da República, será para fazer muito mais do que nós fizemos", afirmou. "Tenho 71 aos e pareço um jovem de 30. Quem acha que vai me proibir de fazer as coisas, pode se preparar que eu vou voltar a andar este País para fazer as coisas importantes."

Lula foi alvo de um protesto de aproximadamente 50 pessoas, logo que começou a falar. Aos gritos de "Fora Temer, Fora Todos" e "Lula não nos representa", os militantes da Central Sindical e Popular - Conlutas (CSP) viraram as costas no momento em que ele pegou o microfone. Foram hostilizados pela plateia e tiveram de se retirar do auditório do Centro de Convenções Ulysses Guimarães.

"Esse congresso age de forma antidemocrática ao convidar um ex-presidente que não colaborou em nada com a educação", afirmou a professora Janaína Rodrigues, filiada ao PSTU e uma das militantes do grupo. "As ações do governo Lula e Dilma não foram para beneficiar os trabalhadores, mas os barões de ensino e os banqueiros."

Na hora do protesto, a plateia -- formada por cerca de 2000 pessoas, a  maioria do PT - começou a gritar "Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula", em defesa do ex-presidente, chamado de "guerreiro do povo brasileiro". Ele se referiu à manifestação como "gesto democrático" e continuou o discurso. "Se essas pessoas acompanhassem a história, iam saber os equívocos que estão cometendo", comentou.

Com chapéu panamá na cabeça e uma mochila nas costas, o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares - que chegou a ser condenado no processo do mensalão e cumpriu pena em regime fechado - circulava tranquilamente no auditório.

Lula defendeu a ex-presidente Dilma Rousseff, que sofreu impeachment em agosto. "O que nós não podemos aceitar é eles falarem que nós quebramos o País. Eles deveriam ter coragem de dizer que o grande equívoco da companheira Dilma foi fazer a desoneração para manter o emprego. Foi um equívoco? Pode ter sido. Mas ela não quebrou o País como eles dizem", discursou. "Quem quebrou o País foi o golpista. Desde que Dilma ganhou as eleições e o senhor Eduardo Cunha foi eleito presidente da Câmara, ele trabalhou de forma incansável para não deixar a Dilma aprovar as reformas."

O seminário foi marcado por gritos de "Fora, Temer" e mais parecia um ato de campanha de Lula. "Nós precisamos ter consciência de que estamos perdendo. Mas, para ser presidente, é preciso ter credibilidade. E, para ter credibilidade, só alguém eleito pelo povo brasileiro. Não dá para ter alguém que chegou ao poder pelo golpe, pela porta dos fundos", afirmou, numa referência a Temer. "Nós só temos uma coisa a fazer, que é "lutar, lutar, lutar e fazer o povo brasileiro conquistar o direito de votar outra vez, quem sabe até em 2017."

A estratégia do PT é lançar logo a campanha de Lula ao Palácio do Planalto, com o objetivo de criar um fato político e ter argumentos para dizer que ele é vítima de "perseguição", caso seja impedido de concorrer pela Justiça. O ex-presidente é réu em cinco ações penais - três delas referentes a inquéritos da Operação Lava Jato. Se for condenado em segunda instância, não poderá disputar a eleição, por causa das restrições impostas pela Lei da Ficha Limpa.

Ao receber apelos da plateia para ser candidato, Lula abriu um sorriso. "Essa é uma discussão que vamos fazer em 2017. Quero discutir com eles que esse País pode se recuperar. E, para se recuperar, tem uma palavra milagrosa, que é criar empregos", insistiu. Apesar da taxa básica de juros ter caído 0,75 ponto porcentual, indo para 13%, Lula disse não ser possível que a Selic "continue crescendo do jeito que está".

Ao avaliar a crise carcerária, que deixou 97 mortos em presídios do Amazonas e de Roraima em uma semana, o ex-presidente afirmou que o caos penitenciário é fruto do que foi "plantado" no País. Para ele, o dinheiro economizado com educação, no passado, está sendo gasto agora na construção de presídios.

"A gente está colhendo o que foi plantado há muito tempo. Vocês ficam revoltados porque um jovem de 25 anos foi preso? Quem é o culpado pelo jovem preso? O que deram de oportunidade quando ele tinha sete ou nove anos? Se eu não dou educação, oportunidade para trabalhar, essa criança vai fazer o que na vida?", perguntou.

Ovacionado pelos militantes do PT, Lula calculou que 40% dos presos nem deveriam estar na cadeia. "É que é mais fácil pegar um pobre, que roubou uma galinha para se alimentar, colocar na cadeia. E quando ele sai, aí sim ele vira bandido".

A organização do seminário da CNTE fez a defesa do ex-presidente no fim da abertura do encontro. Em um telão, uma voz em off dizia que Lula é vítima de massacre da mídia e também de "lawfare", uma estratégia para atacar inimigos políticos com acusações infundadas e sem provas.

Para Gilson Reis, coordenador da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (Contee), o "golpe" foi urdido para interditar o petista. "Querem prender o Lula. Se prenderem o Lula prendem cada um de nós, porque não aceitaremos", protestou ele.

O presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas, afirmou que 2017 será o ano da "derrota" de Temer. "Nós não reconhecemos esse governo golpista e nossa função é derrubá-lo, o quanto antes possível. Precisamos fazer eleições diretas ainda em 2017, para o Brasil voltar a crescer", conclamou o sindicalista. 

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