Lula ocupou espaços e 'comeu a oposição', diz 'El País'

Segundo o jornal, oposição reconhece que é difícil se opor a líder popular como Lula.

BBC Brasil, BBC

16 de novembro de 2007 | 08h55

Graças à sua "capacidade para intuir o que o público quer ouvir", o presidente Luiz Inácio Lula da Silva acabou "comendo a oposição, ocupando todos os espaços", afirma texto de análise publicada nesta sexta-feira na edição online do diário espanhol El País.Um líder oposicionista do PSDB que pediu para não ser identificado disse ao jornal que seu partido está em crise de identidade, porque Lula foi se apropriando das bandeiras do partido."A oposição chegou a reconhecer que 'é difícil se opor a um líder como Lula, que tem do seu lado a grande massa de pobres do país'", afirma o jornal, acrescentando que "o presidente é tão consciente disso que em um momento delicado de seu mandato chegou a ameaçar a oposição com 'levar o povo às ruas'".O jornal diz que "o ex-torneiro mecânico, fundador do Partido dos Trabalhadores (PT), que o levou ao poder em 2002 sob as consignas da esquerda tradicional, soube ganhar praticamente todas as forças políticas, desde a direita até a extrema esquerda"."Hoje, 11 partidos apóiam seu governo, o que garante a ele a maioria do Congresso, ainda que às vezes deva pagar por isso um preço muito alto: dada a escassa fidelidade dos deputados e senadores brasileiros a seus respectivos partidos, costumam ser seduzidos com cargos ou ajudas financeiras para seus respectivos colégios eleitorais", afirma o artigo.O jornal observa que mesmo o Democratas (DEM), antigo PFL, que tem sido "o mais difícil de domar por Lula", sofreu baixas de congressistas que migraram para os partidos da base do governo e teve sua força reduzida."O outro grande partido da oposição, o PSDB, viu seu campo invadido por Lula, que herdou sua política econômica neoliberal de contenção de inflação, câmbio flutuante e rigor fiscal", diz o diário.O artigo diz que "Lula inclusive ironiza sobre a oposição, dando a entender que seus deputados têm um preço, já que sempre podem acabar sendo comprados para que votem suas propostas no Congresso em troca de algum tipo de ajuda". "E isso, apesar de que ninguém esqueceu ainda que em 2005 a política do PT de subornar os partidos da oposição o colocou à beira da destruição", afirma o jornal.O artigo questiona então se haveria alguma margem para a oposição. "Segundo os analistas independentes, a oposição somente poderia fazer frente a Lula com algo que ele não possui, apesar de uma popularidade tão enorme que às vezes beira o populismo: um projeto de país de longo prazo", diz."Somente assim a oposição poderia propor uma alternativa ao lulismo, que corre o risco de se perpetuar no poder ao estilo do Partido Revolucionário Institucional (PRI) do México", afirma o artigo, em referência à agremiação que governou o México por 71 anos.O jornal comenta que, segundo os analistas, "a oposição poderia apresentar como alternativa uma democracia parlamentar, sem resquícios para os golpes de efeito populistas, com instituições sólidas, com partidos fiéis a suas ideologias, com poderes independentes e bem definidos, e com uma luta sem trégua à corrupção e à violência"."E alertam que um país sem oposição pode, no longo prazo, criar maiores riscos do que uma ditadura, já que se desvanecem os estímulos para lutar para mudar sua situação", conclui o artigo.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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