Lula quer manter investimento para driblar crise

Em seu primeiro compromisso público de 2009, após 12 dias de férias, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o governo vai manter o investimento para impedir que a crise financeira internacional chegue com mais força no país. Cortes, disse Lula, apenas nos recursos destinados à manutenção da máquina pública. Acompanhado da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), com novo visual após uma remodelação facial, Lula antecipou nesta segunda-feira que o governo vai anunciar este mês mais medidas para conter os impactos da crise no país. "Neste momento, nós vamos dizer o seguinte: tudo o que for possível cortar em custeio, não tenham dúvidas que vamos fazer. Mas tudo que for possível colocar para gerar um posto de trabalho na construção civil, na habitação, nas ferrovias e rodovias, vamos fazer", disse Lula em discurso a empresários e autoridades na abertura da 36a Couromoda, feira de artefatos de couro. Na entrevista, garantiu que as medidas saem em breve, mas evitou dar detalhes explicando que anunciar antecipadamente pode ser "nefasto". "Este mês de janeiro é um mês em que estamos trabalhando para preparar todas as medidas. Como nós anunciamos o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) em 22 de janeiro de 2007, nós vamos ter medidas importantes para anunciar neste mês de janeiro", disse, acrescentando que pretende se reunir até o início de fevereiro com governadores para discutir soluções conjuntas. No domingo, Lula se reuniu com Dilma e com o ministro Guido Mantega (Fazenda) para se inteirar da situação econômica do país durante o período em que esteve de férias. O presidente e os ministros também conversaram sobre os detalhes das medidas que serão apresentadas este mês, de acordo com informação de um auxiliar do Planalto. Já é certo que o governo vai lançar um pacote de incentivo para a habitação e a construção civil. Também deve ampliar o crédito às exportações e aumentar os recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para a indústria e a infraestrutura. CRESCER 4% Lula voltou a defender crescimento de 4 por cento este ano, enquanto economistas falam na metade disto. "Os economistas que estão apostando no crescimento de 2 por cento vão errar. Nós, governo, vamos trabalhar para crescermos o máximo possível, e o governo continua trabalhando com a possibilidade de fazer com que o crescimento chegue a 4 por cento." O presidente manteve o discurso otimista que o acompanha desde setembro, quando estourou a turbulência nos mercados financeiros dos EUA e da Europa. Disse que o país está preparado para enfrentar a crise e que os emergentes são vítimas da situação desfavorável que nasceu nas nações ricas. Segundo Lula, os Estados Unidos e a Europa têm que resolver seus problemas internos, já que o Brasil tem equilíbrio nas contas públicas e na inflação, um mercado consumidor com grande potencial e garantia de fornecimento de matéria-prima. "Temos um país mais arrumado que os outros para enfrentar a crise", afirmou. Ponderou, no entanto, que o país tem "problemas domésticos para resolver", mas mais uma vez não indicou quais. O otimismo que demonstra para o Brasil, se reverte em forte pessimismo para os países centrais da crise. No discurso, Lula chegou a prever a possibilidade de uma convulsão social se as nações envolvidas na crise não tomarem medidas urgentes. "Japão, França e Alemanha, todos os países que estão mais diretamente envolvidos na crise, sabem que ela não pode perdurar muito tempo porque com a consequência do desemprego nesses países nós corremos o risco de uma convulsão social, que o mundo desenvolvido não esperava que acontecesse no século 21", declarou. Lula se mostrou confiante com a posse do presidente eleito dos EUA, Barack Obama, no próximo dia 20, mas alertou que ele tem um grande desafio pela frente. "O presidente Obama está com um pepino muito grande. Ele não pode perder tempo para resolver a crise", disse. Afirmou ainda que vai participar de um encontro de líderes em Londres em 2 de abril, quando voltará a cobrar controles mais rígidos para o mercado financeiro. "Porque tem gente que ganhou dinheiro sem produzir um prego para sapato, só com especulação", afirmou. SAPATOS Antes do discurso, Lula passeou pelos estandes da Couromoda, no Pavilhão de Exposições do Anhembi, e, após ganhar um par de sapatos, brincou de arremessar um pé deles nos jornalistas que o acompanhavam, invertendo a situação vivida pelo presidente dos EUA, George W. Bush, no Iraque recentemente. Sapato também foi assunto entre Lula e o governador José Serra (PSDB). Serra cobrou a fixação pelo governo federal de um preço mínimo para a entrada de sapatos chineses, uma vez que, segundo ele, produtos deste país chegam ao Brasil custando 1 dólar (2,3 reais) e tiram mercado do sapato nacional. Lula não foi preciso mas disse que o valor de referência fixado pelo governo é de cerca de 15 reais, e afastou a opção pelo protecionismo.

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